nº32 Janeiro 2011

André Moreira

  • árbitro de futebol e médico dentista
  • 25 de Ene, 2011

árbitro de futebol e médico dentista

Maxillaris. Arbitragem ou medicina dentária: qual das duas actividades surgiu primeiro?
André Moreira. Apareceram, sensivelmente, na mesma altura. Fui aliciado a tirar o curso de árbitro de futebol pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF) quando estava a iniciar os estudos de Medicina Dentária. Portanto, já lá vão cerca de oito anos de dedicação a ambas as actividades.

Maxillaris.Como se enquadram duas vocações aparentemente tão diferentes?
André Moreira. Em jeito de brincadeira, costumo dizer que não são tão diferentes quanto isso. Tanto na arbitragem como na medicina dentária, o erro não é admissível – ainda que as consequências de uma má decisão sejam diferentes num caso e no outro. Com as devidas diferenças, são duas actividades que exigem a mesma atenção e concentração.

Maxillaris.Centremo-nos na sua faceta ligada ao desporto. Como se iniciou o seu percurso no universo do futebol?
André Moreira. Sempre fui desportista. É costume dizer-se que só vai para árbitro quem não tem jeito para jogar futebol, mas nem sequer era o meu caso; por acaso, até tinha algum jeito para a bola.
A arbitragem surgiu por curiosidade, do meu interesse enquanto praticante de desporto. Decidi tirar o curso da FPF. A partir daí, fui ficando cada vez mais ligado ao meio, comecei a subir de escalão e ainda me mantenho. Quando terminamos o curso de árbitro, estamos sujeitos a uma série de escalões e vamos progredindo, ou não, consoante as avaliações. Cada vez que arbitramos um jogo, somos observados por um elemento que avalia a nossa prestação em parâmetros objectivos. Após o encontro, obtemos o feedback desse observador, que nos atribui uma nota que determinará a nossa classificação.
A média de classificações é que dita a descida, manutenção ou ascensão de cada árbitro nas diferentes categorias.

Maxillaris.Espera ascender à liga principal do futebol português?
André Moreira. Mantenho essa aspiração. Sei que é uma meta dificil de atingir, mas é o alcançar dessa meta que nos faz trabalhar diariamente. Tenho que acreditar que poderei alcançar esse objectivo a médio ou longo prazo.

Maxillaris.Tem aspirações internacionais? Vê-se um dia a dirigir um jogo de um europeu ou mundial de futebol?
André Moreira. Esse é o sonho de qualquer árbitro que gosta realmente do que faz. Arbitrar num campeonato do mundo é o objectivo máximo a atingir.
No entanto, tenho a consciência de que a percentagem de árbitros que atingem esse patamar é reduzida.

Maxillaris.Tendo em consideração que a carreira de árbitro pode ir até aos 45 anos, presumo que tem boa margem para progredir e atingir esse estatuto internacional…
André Moreira. De facto, ainda não cumpri os 30 anos de idade, o que significa que tenho tempo para exercer e progredir como árbitro. Mas só os melhores atingem essa categoria.
Em todo o caso, arbitrar um jogo internacional não é uma obsessão; é apenas um objectivo que nos motiva a trabalhar diariamente. Para mim, o futebol nunca foi uma obsessão.

Maxillaris.Que tipo de preparação ou rotina exige a sua actividade como árbitro?
André Moreira. Muitos julgam que a actividade de um árbitro se resume ao tempo que dura um jogo. A realidade é bem diferente: eu treino diariamente em campo e no ginásio, portanto, faço uma preparação que percorre toda a semana.
Todos os dias, depois da minha actividade clínica, treino durante hora e meia ou duas horas. Esse treino diário é que me permite chegar ao fim de semana física e tecnicamente pronto para o jogo.

Maxillaris.Pelos vistos, o processo é semelhante ao dos jogadores.
André Moreira. Sim, tenho a mesma preocupação e preparação que têm os atletas.
Quando sei que actuo em determinado dia, tenho os mesmos cuidados na alimentação ou em manter o meu descanso na véspera, para poder estar ao melhor nível quando estou a arbitrar um jogo.

Maxillaris.Recorda algum momento particularmente marcante na sua carreira desportiva?
André Moreira. Até à data, o momento mais marcante foi aquele em que tive oportunidade de partilhar um jogo com o árbitro internacional Duarte Gomes, num torneio internacional que decorreu em Lisboa. Foi logo na fase inicial da minha carreira de árbitro. Tive oportunidade de acompanhar um profissional e um amigo que muito estimo e que exemplifica aquilo que todos os árbitros esperam um dia atingir.

Maxillaris.Presumo que também tenha vivido nos relvados episódios para esquecer...
André Moreira. Todos temos momentos para esquecer e todos erramos. O árbitro que disser que não erra não está a ser sincero consigo próprio.
Os momentos para esquecer são aqueles em que tomamos uma decisão e no final do jogo nos apercebemos que essa decisão não foi a mais correcta.
São momentos que podem ser mais ou menos frequentes, mas temos de tentar que ocorram o menos possível.

Maxillaris.Que comentário lhe merece a generalizada falta de empatia relativamente à figura do árbitro?
André Moreira. Vivemos numa época em que se discute muito as decisões dos árbitros. O árbitro é sempre o bode expiatório. É mais fácil justificar uma derrota com o erro de uma pessoa só.
Não se justificam derrotas com concretizações mal efectuadas, com avançados que falharam um golo de baliza aberta, nem mesmo com guarda-redes que sofrem golos caricatos; justifica-se a derrota com a equipa de arbitragem. Estamos a falar de quatro pessoas que estão a decidir no momento um jogo que é disputados por 22 jogadores. São decisões ao segundo, que têm de ser tomadas naquele instante. Não há tempo para pensar.
No campo da contestação, a tendência é realmente justificar as derrotas com o elo mais fraco, neste caso, o árbitro. Não vejo nenhum clube ou presidente de um clube assumir--se culpado por ter contratado um guarda-redes que se calhar não era o mais indicado ou por ter gasto 15 ou 20 milhões de euros num jogador que não dá rendimento.

Maxillaris.Lida bem com a situação?
André Moreira. Lido. Há sempre momentos menos bons, momentos que são o resultado de uma determinada decisão, de um mau dia, que toda a gente tem. Como em todas as actividades, há pessoas mais competentes que outras e há momentos em que estamos sob pressão e tomamos uma decisão que pode não ser a mais indicada, mas estamos sujeitos a isso, faz parte do jogo. O futebol é essa paixão…

Maxillaris.Disfruta muito dos jogos? Ou melhor, a atenção aos pormenores das jogadas deixa-lhe margem para apreciar os bons momentos de futebol que se vivem em campo?
André Moreira. Em campo não temos tempo para disfrutar desses momentos. A nossa atenção está totalmente focada nos jogadores, nas faltas, nas infracções que são cometidas. Quando estou em casa ou nas bancadas de um estádio, gosto de ver bom futebol, mas quando estou em campo estou tão concentrado na minha missão que não tenho tempo para disfrutar do espectáculo.

Maxillaris.É defensor das novas tecnologias como instrumento de apoio à arbitragem?
André Moreira. Tudo o que possa contribuir para diminuir os erros dos árbitros é positivo para o futebol. Sou a favor das novas tecnologias que já são utilizadas em outras modalidades – por exemplo, no ténis quando se fala no olho de falcão, que poderia ser utilizado no futebol. Temos de tentar minimizar os erros humanos, que são naturais. Com as novas tecnologias que actualmente existem, poderiamos minimizar esses erros e, se calhar, mudar também um pouco a imagem que se tem do árbitro.
Julgo que estamos nesse caminho. Actualmente, temos um árbitro e dois árbitros asistentes, temos um quarto árbitro. Todos os intervenientes comunicam entre si através de um intercomunicador. Isso facilita muito a decisão do árbitro. É uma equipa que está em constante comunicação. O árbitro tem no seu braço um sinal sonoro que é accionado pelos asistentes e pelo quarto árbitro. Portanto, já se introduziu alguma tecnologia. Se calhar ainda não é a tecnologia ideal, mas acho que estamos a caminhar decisivamente nesse sentido, para facilitar o trabalho do árbitro e acima de tudo criar um sentimento de justiça em algumas decisões que são tomadas.

Maxillaris.Como avalia o actual momento da arbitragem em Portugal? A evolução é positiva?
André Moreira. Ao contrário do que pensa a opinão pública portuguesa, os árbitros portugueses são muito conceituados no estrangeiro. Presentemente, temos dois árbitros no grupo de elite da UEFA: Pedro Proença e Olegário Benquerença. Também temos árbitros na first class (a classe imediatamente inferior), como Duarte Gomes, entre outros. Portanto, para a UEFA os árbitros portugueses são profissionais com muito potencial.
Em Portugal, infelizmente, não são tão bem aceites. É curioso verificar que as críticas aos árbitros internacionais que actuam no nosso país não são tão ferozes quanto são para os portugueses. Mas é bom que as pessoas tenham a noção de que os árbitros portugueses são conceituados a nível europeu e mundial.

Maxillaris.Acha que é necessário adoptar novas medidas ao nível da formação ou do próprio estatuto da carreira de árbitro?
André Moreira. Acho que é fundamental. Cada vez existem menos árbitros, especialmente nos escalões mais baixos. Com a conjectura que se criou, é difícil cativar os jovens para a carreira de árbitro. Ao nível da formação poderia haver uma mudança. Em termos de carreira de árbitro, já existia um projecto piloto de profissionalizar os árbitros, só que isso implica algunas alterações na própria sociedade. É necessário cativar cada vez mais jovens para esta actividade.
Julgo que o futuro, mais ou menos próximo, será a profissionalização. Se temos treinadores que são profissionais, direcções (SAD) e jogadores profissionais, isso significa que temos um meio que move milhões em que apenas um elemento não está nestas condições. Alguém que exerce a sua actividade durante o dia e que depois tem de ir treinar por conta própria.

Maxillaris.Ainda a propósito de futebol, como vê o desempenho da selecção nacional sob a orientação de Paulo Bento?
André Moreira. Todos gostamos que a selecção triunfe. A entrada de Paulo Bento foi uma lufada de ar fresco. Os jogadores mostram-se motivados, os resultados têm aparecido. Estão a fazer um bom trabalho. Acredito que vamos estar na fase final do Euro 2012. Devemos apoiar a selecção nesse sentido.

Maxillaris.Como surgiu o seu gosto pela medicina dentária? É uma vocação hereditária?
André Moreira. Não foi pela via hereditária, pois nenhum dos meus familiares exerce a profissão de médico dentista. Surgiu por gosto pessoal. Desde o primeiro instante que é uma actividade que me fascina e me dá prazer diariamente. Gosto de exercer esta profissão.

Maxillaris.Que requisitos considera fundamentais para trabalhar nesta área?
André Moreira. O principal requisito é termos gosto em tudo o que fazemos. Quem não é feliz na actividade que exerce nunca poderá ser um profissional excelente.
Por outro lado, tal como a arbitragem, a medicina dentária exige particular atenção e concentração. Ambas as actividades têm essas valências. Se calhar é por isso que sou um apaixonado por estes dois ofícios.

Maxillaris.Em termos gerais, qual é a sua opinião sobre o panorama nacional da Medicina Dentária?
André Moreira. Portugal tem da melhor medicina dentária que se pratica no mundo. Tenho tido a oportunidade de assistir a alguns congressos mundiais de medicina dentária e noto que as conferências e os casos apresentados por profissionais portugueses são bastante elogiados.

Maxillaris.Que desafios se colocam à classe dos médicos dentistas?
André Moreira. O principal desafio que devia nortear a medicina dentária portuguesa seria facilitar o acesso aos cuidados de saúde oral à generalidade da população. Refiro-me a tratamentos que são dispendiosos e que, neste momento, não são tão acessíveis quanto deveriam ser. O cheque-dentista é um passo importante nesse acesso à medicina dentária e deve ser valorizado, mas trata-se apenas de um primeiro passo. Devem suceder-se outras acções que permitam o acesso da generalidade dos portugueses à medicina dentária.

Maxillaris.No contexto internacional, como classifica a posição de Portugal no domínio da Implantologia?
André Moreira. Não fica nada atrás de qualquer outro país da Europa ou do mundo. Em Portugal está a ser desenvolvido muito trabalho de investigação que tem sido divulgado em congressos internacionais. Temos profissionais convidados para dar cursos nos EUA e em outros países com tradição de vanguarda neste sector. É sinal de que a medicina dentária portuguesa é valorizada e conceituada fora de portas. t

 

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