Nº63 OUTUBRO 2015

Podem os médicos dentistas salvar vidas?

  • Pedro Ferreira Trancoso, médico dentista. Docente de medicina oral na Universidade Fernando Pessoa (Porto) e vice-presidente da Academia Portuguesa de Medicina Oral.
  • 05 de Oct, 2015

Pedro Ferreira Trancoso, médico dentista. Docente de medicina oral na Universidade Fernando Pessoa (Porto) e vice-presidente da Academia Portuguesa de Medicina Oral.

Comemorou-se no passado dia 12 de setembro o Dia Europeu da Saúde Oral tendo o Conselho Europeu de Dentistas escolhido esta data para chamar a atenção para o problema da incidência elevada e da alta taxa de mortalidade que o cancro oral tem no espaço europeu. O cancro oral atinge 75.000 europeus todos os anos e, apesar dos avanços conseguidos nas últimas décadas no campo do tratamento, cerca de 50% dos doentes mor­rem em cinco anos e os sobreviventes vivem com as dificuldades ine­rentes ao tratamento. A taxa de morbilidade é elevada e decorre do compromisso estético e funcional (fonação e deg­lu­tição). Portugal apresenta uma das mais elevadas taxas de incidência da doença quando comparado com os ou­tros países europeus sendo que as ta­xas de mortalidade são idênticas.

Em junho passado, o Parlamento Europeu e o Conselho Europeu de Dentistas organizaram em Bruxelas um debate sobre o tema, intitulado “Oral cancer: dentists saving li­ves”, que contou com a presença da Ordem dos Médicos Den­tistas. Neste encontro foi reconhecido pelos parlamentares que muito espaço existe para a prevenção e o diagnóstico precoce desta doença.

Pelo lado da prevenção, é imperativo reduzir as taxas de consumo de tabaco e de álcool, bem como diminuir a exposição à in­feção pelo vírus do papiloma humano (HPV, na sigla em inglês), sendo que aqui a vacinação surge como essencial no processo preventivo. Por outro lado, foi reconhecido por todos que é o diagnóstico tardio da doença que mais influencia a elevada taxa de mortalidade. O diagnóstico tardio é influenciado por fatores como o pouco grau de conhecimento acerca da doença (fatores de risco, sinais e sintomas, etc.), a dificuldade dos médicos de clínica geral no diagnóstico de pequenos tumores intraorais e de lesões potencialmente malignas, o facto de o cancro oral ser uma doença que privilegia grupos socioeconómicos desfavorecidos e, como tal, com menos acesso a cuidados de saúde oral, dietas mais pobres em frutas e vegetais frescos e consumos mais elevados de agentes potencialmente carcinogénicos.

Neste contexto, o projeto de intervenção precoce do cancro oral (PIPCO), elaborado pela Direção Geral da Saúde e pela OMD, foi considerado inovador quando comparado com outros programas europeus que visam reduzir a mortalidade associada à doença. É de salientar que países como Espanha, Irlanda e Reino Unido, entre outros, baseiam os seus programas em campanhas de rastreio de cancro oral, cuja eficácia é discutível, com consultas efetuadas a título gratuito por médicos dentistas nos seus consultórios ou nas faculdades e nos hospitais dentários. O PIPCO revela-se, por isso, um verdadeiro programa que, para além de remunerar os agentes envolvidos, não é li­mitado no tempo, envolve clínicos ge­rais, médicos den­tistas e estomatologistas, institutos de oncologia (IPO) e o Instituto de Pa­tologia e Imunologia Molecular da Uni­ver­sidade do Porto, está disponível em todo o território de Por­tugal continental, estabelece um protocolo bem definido para o diagnóstico das lesões suspeitas e o encaminhamento – em tempo mais do que adequado – para os hospitais de referência em caso de diagnóstico de cancro.

Do ponto de vista do diagnóstico e do tratamento precoces, es­tão criadas as condições em Portugal para que haja uma redução efetiva da mortalidade e morbilidade associadas ao cancro oral; precisamos agora de investir também na prevenção. É ne­cessária uma maior aposta em campanhas de informação, na for­mação dos médicos de medicina geral e familiar para que es­tejam mais capazes de reconhecer lesões suspeitas e encami­nhar dos doentes para a rede de médicos dentistas aderentes ao PIPCO, nas consultas de desabituação tabágica e na universalidade da vacinação contra o HPV. Os médicos dentistas portugueses desempenham hoje um papel mais ativo na luta contra o cancro oral e podem mesmo salvar vidas.

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