Nº68 ABRIL 2016 - ZONA JOVEM

"A nossa geração, apesar das muitas dificuldades que sente, não baixa os braços e continua a querer ser agente de mudança"

  • Mariana Barcelos Vaz, coordenadora do Conselho dos Jovens Médicos Dentistas da OMD
  • 11 de Abr, 2016

Mariana Barcelos Vaz, coordenadora do Conselho dos Jovens Médicos Dentistas da OMD

Que prioridades estabeleceu para o seu mandato à frente do Conselho dos Jovens Médicos Dentistas da OMD?
Acima de tudo, o mais importante é garantir um apoio efetivo aos jovens médicos dentistas e fazê-los compreender que a Ordem também é nossa. Por isso, preocupa-se verdadeiramente com a nossa realidade. Sendo a representação institucional e política a vertente que considero mais importante num conselho jovem, saliento também a informação constante sobre a profissão, suportando o desenvolvimento profissional. Tudo isto, através do estabelecimento de uma linha de proximidade com os médicos dentistas.
É sabido que os jovens veem, cada vez mais, a sua entrada no mercado dificultada pelas poucas oportunidades, e enfrentam mesmo situações de exploração. As situações de emprego precário e de desemprego são uma realidade que urge combater.

Que soluções preconiza para contornar as principais dificuldades que enfrentam os médicos dentistas em fase inicial de carreira?
É muito importante que os jovens tenham o discernimento para identificar situações de exploração. E para isso é fundamental que estejam informados sobre a profissão e sensibilizados para o facto de quando nos sujeitamos a trabalhar com más condições e sem perspetivas de futuro, não estamos a apostar em nós, nem na profissão. Cabe à OMD, e especificamente ao Conselho dos Jovens Médicos Dentistas, alertar para estas situações, informar os jovens médicos dentistas e servir de rumo orientador.

Recomendaria mais formação específica sobre como enfrentar a vida laboral?
Sim, acho aliás um tema muito pertinente e que esperamos poder trabalhá-lo no Conselho dos Jovens Médicos Dentistas. Gradualmente tem vindo a ser dada particular atenção aos temas socioprofissionais, vê-se um interesse crescente sobre estas matérias nos vários congressos nacionais em que elas são abordadas. O nosso papel é sensibilizar ativamente as entidades com obrigações na formação, como as universidades e a própria Ordem, a terem uma oferta consequente nesta área.

Que opinião tem da oferta existente em termos de formação continuada/pós-graduada?
Cada vez a oferta é maior e há mais jovens médicos dentistas interessados e com disponibilidade para fazer formação pós-graduada. Com a tendência que tem havido para a especialização, os jovens veem o investimento na formação como uma boa aposta para que mais oportunidades surjam. E veem bem! É sempre positivo apostarmos no nosso desenvolvimento. Há, no entanto, que saber apreciar e distinguir as formações que nos são oferecidas para que o investimento seja o melhor. As formações associadas às instituições de ensino devem ser privilegiadas, já que estas oferecem uma garantia de qualidade, por serem instituições acreditadas. Obviamente existem algumas alternativas também muito válidas. Mas depende também do tempo que se está interessado em despender. É sempre pertinente avaliar os programas, os oradores e pedir segundas opiniões a colegas que já tenham realizado as formações.

Como encara o atual panorama da plétora profissional? Partilha da opinião de que é urgente reduzir o numerus clausus no ensino do setor?
É preocupante o número crescente, a cada ano, de médicos dentistas ativos em Portugal. Para Portugal, a Organização Mundial de Saúde recomenda um médico dentista para cada 2.000 habitantes e, neste momento, somos já cerca de um médico dentista para 1.100 habitantes. Tendo em conta que o rácio continua a aumentar e que o acesso universal à saúde oral em Portugal ainda não é uma realidade, a situação é preocupante. O excesso de profissionais gera um problema transversal a todas as idades na profissão e particularmente aos mais jovens, que ou se sujeitam a trabalhar em condições por vezes precárias para poder permanecer em Portugal, ou emigram.
O Estado tem efetivamente de repensar na estratégia de formação de médicos dentistas. Formamos para exportar? O curso de Medicina Dentária é dos mais caros no ensino superior e mesmo assim há excesso de profissionais – só as faculdades públicas formam por ano cerca de 200 médicos dentistas. As faculdades privadas, aparte de regulamentação estatal, formam mais do dobro das públicas. Faz sentido? Não me parece. As instituições têm que, gradualmente, virar o foco para a formação pós-graduada e diminuir os formandos de pré-graduado.
Acha que a nova geração de médicos dentistas está suficientemente apoiada e representada no contexto das entidades e sociedades científicas do setor? Que medida(s) sugere com vista a reforçar esta representação?
Olho para a nossa geração e vejo muita vontade de trabalhar, vontade de se envolver e de empreender. Quando saímos da faculdade encontramos um mundo muito diferente do que conhecíamos quando éramos estudantes, mas esta integração no mundo laboral é feita com cada vez mais iniciativa, criatividade, com espírito de sacrifício e proatividade. A nossa geração, apesar das muitas dificuldades que sente, não baixa os braços e continua a querer ser agente de mudança. A participação em associações, grupos de formação, sociedades é cada vez mais notória. Um exemplo: basta observar as comissões organizadoras e colaboradores de muitos congressos nacionais; a envolvência dos jovens é notória e os resultados são excelentes.

Que importância atribui a sua geração às redes sociais e às novas tecnologias?
As novas tecnologias permitem que estejamos conectados a vários sítios simultaneamente. A nossa geração está a conseguir extrair o melhor que as tecnologias nos oferecem: ser um meio de comunicação que nos liga ao outro lado do mundo. É uma peça importante ao nível da globalização da cultura e da informação. Aproxima-nos dos outros e torna-se uma ferramenta útil para a busca de soluções do dia a dia, bem como de promoção do nosso trabalho.
Ajuda-nos a melhorar a eficiência das nossas tarefas, na medida em que nos possibilita uma consulta de opiniões e aperfeiçoamento de técnicas num curto espaço de tempo, o que não seria possível de outra maneira.

Que memórias mais a marcaram no contexto da sua experiência na área do voluntariado, nomeadamente na Guiné-Bissau?
Foram muitas. Pessoas que caminhavam durante horas para poder ser atendidas por nós. Relatos de pessoas que sofriam de dores de dentes há anos, sem resolução. O entusiasmo com que nos olhavam as crianças. Passar dias inteiros a realizar extrações até ao cair da noite e termos de parar porque os mosquitos eram atraídos pa­ra as nossas lanternas. Os pequenos gestos de agradecimento de pessoas que pouco têm. A beleza natural da­quela terra. E, acima de tudo, os muitos sorrisos que me foram oferecidos ao longo dos três meses em que lá estive.


O que diria aos seus jovens colegas de profissão para os motivar a aderir ao voluntariado?
Felizmente, são cada vez mais os jovens que me contactam para perceber como se podem envolver nestas atividades. A nossa geração está predisposta para o voluntariado, para a interculturalidade, para o co­nhecimento de outras realidades e a aprendizagem com elas. É isso que o voluntariado nos traz: dá-nos uma perspetiva diferente de ver o mun­do, faz-nos valorizar o que muitas vezes desvalorizamos e enche-nos o co­ração pelo que conseguimos acrescentar de bom à vida de outrem.


À margem do voluntariado, alguma vez equacionou a possibilidade de procurar outros horizontes (além-fronteiras) em termos profissionais?
Quando voltei da minha missão de voluntariado na Guiné com a Mundo a Sorrir dei os meus primeiros passos no mundo do trabalho e interiorizei que dentro de seis meses avaliava a minha situação e que no máximo a um ano, caso não visse melhorias na minha inserção profissional, tomava a decisão de emigrar. Isto porque sabendo que somos valorizados no estrangeiro, torna-se ingrato vermos a nossa vida adiada pela falta de oportunidades em Portugal. Não vejo nada de errado em alargarmos os nossos horizontes e trabalharmos além-fronteiras. Muitas vezes esta opção contribui, em muito, para o nosso desen­volvimento pessoal. Mas fazê-lo porque não se vislumbra outra alternativa é algo a que os profissionais não deveriam estar sujeitos.

A Medicina Dentária foi a sua primeira opção? O que mais a fascina nesta profissão?
Decidi que queria ser médica dentista quando aos 14 anos, após remover o aparelho e ter um sorriso renovado, percebi o impacto que o sorriso pode ter na nossa auto-estima e nas relações com os outros. Foi um passo marcante do meu desenvolvimento pessoal e com isso veio a decisão do que queria fazer no futuro: construir e devolver sorrisos. É isso o fascinante, a possibilidade de contribuirmos para o bem-estar da pessoa, não só a nível físico, como também psicológico e de promoção da sua inserção social.

Em termos globais, como antevê a evolução do setor na próxima década?
Parece-me que a tendência será cada vez mais a especialização dos médicos dentistas. Para acompanhar pacientes cada vez mais exigentes nos resultados dos tratamentos, será necessário que existam médicos dentistas muito bem preparados e capazes de dar resposta às várias situações que vão surgindo.
Aliado a tudo isto, está a chegar o boom das tecnologias e da sua integração no ambiente clínico: im­pressões e planeamentos digitais, confeções de materiais adaptados na hora, etcétera. Os jovens médicos den­tistas apercebem-se desta modernização da Medicina Dentária e estão dispostos a diferenciar-se nesse sentido para se adaptarem a ela, ou melhor: torná-la uma realidade.

Si quieres compartir...