Nº68 ABRIL 2016 - OUTROS PERFIS

"Quanto mais tempo passo na clínica mais paralelismos encontro com a minha profissão de piloto"

  • Miguel Oliveira, estudante de Medicina Dentária e piloto profissional de motociclismo (atual vice-campeão mundial de Moto3)
  • 11 de Abr, 2016

Miguel Oliveira, estudante de Medicina Dentária e piloto profissional de motociclismo (atual vice-campeão mundial de Moto3)

Quando é que despertou a sua paixão pelas motas… pela velocidade?
A minha paixão iniciou-se desde muito cedo quando o meu pai, aos três anos de idade, me ofereceu uma moto4 como prenda de Natal. Ele era motard e também piloto, e levava-me muitas vezes com ele para as concentrações, daí que eu tenha prestado, desde cedo, uma atenção especial a este desporto.

Em traços gerais, qual foi o seu percurso até chegar aos pódios do motociclismo internacional?
Foi um percurso de muita luta, com uma curva de aprendizagem ascendente. Até chegar ao Mundial passei por muitos campeonatos, maioritariamente em Espanha, campeonatos que permitiram que desenvolvesse as minhas capacidades técnicas de pilotagem. Nestes campeonatos estavam presentes equipas de estrutura no Mundial de MotoGP, onde os pilotos que se destacassem podiam ter um futuro numa destas equipas, o que foi o meu caso.

Após os brilhantes resultados obtidos no ano passado na categoria de Moto3, quais são as suas aspirações para a primeira temporada na competição de Moto2, que se inicia precisamente este mês, no Qatar?
A minha meta é poder lutar por vitórias, mas sendo o primeiro ano nesta categoria quero levar as coisas com calma e aprender o máximo possível.

Calculo que tem a legítima expetativa de ingressar na principal competição da modalidade, junto a pilotos como Valentino Rossi ou Jorge Lorenzo. Que fatores considera essenciais para alcançar este objetivo a curto ou médio prazo?
O essencial para conseguir chegar à competição máxima da modalidade será ter bons resultados na categoria de Moto2. E, sobretudo, demonstrar maturidade, consistência e muita rapidez.
Que momento mais marcante retém, até à data, do seu percurso “sobre duas rodas”?
Certamente quase todas as vitórias no ano passado. Aquela que mais me marcou foi a do Grande Prémio de Mugello, em Itália, por ter sido a primeira. Ouvir o hino nacional e saber que fui o primeiro a conseguir aquela vitória provocou-me sentimentos que jamais irei esquecer.
Quais são as referências mundiais do motociclismo que o inspiram na sua carreira desportiva?
O piloto italiano Valentino Rossi.

Acha que o nosso país tem um futuro promissor no motociclismo internacional?
Eu acabo por, de certa forma, ser o futuro do motociclismo em asfalto em Portugal, pois sou o único representante e os adeptos têm crescido muito ao longo destes últimos anos.
A comunicação social tem encontrado cada vez mais espaço para a minha modalidade, muito embora o futebol continue a ser o “desporto rei”.

Paralelamente à carreira desportiva, optou pela licenciatura em Me­dicina Dentária. Como justifica a escolha e o que mais o atrai nesta sua futura profissão?
O meu ingresso no ensino superior foi dado a uma velocidade alucinante, entre corridas, treinos, exames nacionais... Sempre achei curioso o funcionamento do corpo humano que é mais do que um motor. Daí querer estar num curso relacionado e próximo do corpo humano. E quando tive a oportunidade de assistir a cirurgias de Medicina Dentária, fiquei completamente fascinado.
Hoje em dia, divide a sua rotina entre as provas de motociclismo e os estudos no Instituto Superior de Ciências da Saúde Egas Moniz. É difícil conjugar estas duas facetas?
Por vezes não é fácil conjugar os dois lados, mas na realidade não é impossível. É preciso muito empenho e dedicação. Os excelentes resultados desportivos trouxeram-me mais notoriedade e, como tal, também te­nho que despender mais tempo para entrevistas e ações sociais, o que me deixa menos tempo para dedicar à minha fa­ce­ta de estudante.
Naturalmente, e dando prioridade à minha carreira desportiva, terminar o curso de Medicina Dentária vai de­morando mais tempo.

Quais são as suas principais preocupações – enquanto estudante do setor – relativamente ao panorama nacional da Medicina Dentária?
Preocupa-me bastante a forma como se trabalha o marketing e a publicidade na saúde oral, ficando a faltar o mais importante que é o melhor tratamento para o utente.
A demasiada orientação para o baixo custo permite que se construam modelos de clínicas low cost que não consigo entender, tendo em conta a qualidade e o valor dos materiais que o mercado oferece. Os médicos re­cém-licenciados acabam por aceitar, neste tipo de clínicas, remunerações baixas sem a supervisão de profissionais experientes na área.
Obviamente que tudo isto me causa alguma preocupação, sobretudo pelos utentes que necessitam de cuidados de saúde oral.
Consegue estabelecer alguma relação (paralela) entre a adrenalina das provas e a rotina que o espera no consultório dentário? Aparentemente, o contraste é total...
Tenho tido a possibilidade de acompanhar algumas manhãs na clínica e quanto mais tempo lá passo mais paralelismos encontro com a minha profissão de piloto. O trabalho do médico dentista exige muita precisão e eficácia, e simultaneamente muita rapidez.

Tem preferência por alguma especialidade da Me­­dicina Dentária, em particular, que possa vir a ser determinante na sua formação pós-graduada?
Tenho acompanhado bastantes cirurgias e confesso que é a área que mais me fascina pela variedade de casos e a dificuldade e o desafio que o próprio trabalho exige.

Qual é a “fórmula” do seu sucesso nas pistas e em que medida poderá vir a ser aplicada na sua futura atividade de médico dentista?
Nunca desistir e ser persistente. Ao longo da minha vida, soube ouvir os conselhos e aprender com os ou­tros, o que foi algo que me ajudou bastante a progredir na minha carreira.
Esta aprendizagem aplica-se também no consultório, pois acho que nunca sabemos tudo e que podemos sempre retirar o melhor de cada colega para podermos oferecer a cada paciente o tratamento mais adequado.

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