Nº76 FEVEREIRO 2017

“A distinção de atleta masculino do ano da Universidade do Porto é a cereja no topo do bolo”

  • Jorge Castro, praticante de canoagem e estudante de Medicina Dentária
  • 06 de Feb, 2017

Jorge Castro, praticante de canoagem e estudante de Medicina Dentária

Jorge Castro iniciou-se na canoagem na ilha de São Miguel (Açores), de onde é natural, com cerca de 10 anos de idade. A emblemática lagoa das Sete Cidades – que é considerada uma das sete maravilhas de Portugal – foi durante anos o campo de treino particular que catapultou o agora estudante de Medicina Dentária para as competições nacionais e além-fronteiras da modalidade. O medalhado atleta confessa à Maxillaris que as suas aspirações internacionais são cada vez mais escassas dado que o foco está na sua formação profissional. No entanto, só em 2016 conseguiu quatro títulos de campeão nacional universitário e ainda participou no mundial universitário que se realizou em Montemor-o-Velho. O seu longo e bem sucedido percurso desportivo valeu-lhe, de resto, a distinção de atleta masculino do ano da Universidade do Porto, onde frequenta o quarto ano do Mestrado Integrado em Medicina Dentária. Neste contexto, considera que o futuro “rema” cada vez mais para clínicas especializadas onde se articulam esforços para um plano de tratamento multidisciplinar.

De acordo com o seu currículo desportivo, há pelo menos 15 anos que está habituado a subir aos pódios das competições de canoagem. Quando, e em que circunstâncias, é que se iniciou nesta modalidade?
Comecei na canoagem com cerca de 10 anos. Nos verões, era costume participar no campo de férias organizado pelo Clube Naval de Ponta Delgada, onde ocupava o tempo com diversas atividades, uma delas era a canoagem. Certa manhã, o monitor responsável começou a dar-me dicas de técnica enquanto remava e elogiou a facilidade com que estava a fazer o movimento de re­mada. Convidou-me a ingressar na modalidade e eu aceitei. Durante três anos pratiquei por carolice e participei em cam­peonatos regionais, penso nessa altura ter ganho um ou outro. No meu último ano do escalão de infantil, com 14 anos, comecei a treinar com o crescente apetite de um dia me sagrar cam­peão nacional.

O facto de ter nascido nos Açores in­fluenciou, de alguma forma, a opção por um desporto aquático?
Pode dizer-se que sim, os açorianos têm uma forte ligação com a natureza, nomeadamente com o mar, local onde iniciei este desporto. A canoagem coloca-nos em contacto com o exterior, com a água, com o vento e a paisagem. Com a minha evolução, procurei cada vez mais encontrar melhores condições de treino, razão pela qual comecei a deslocar- -me quase diariamente à lagoa das Sete Cidades para treinar, tendo como motoristas o meu treinador de então ou os meus pais. Portanto, uma das sete maravilhas de Portugal era o meu campo de treino particular.

Experimentou outras modalidades desportivas?
Desde muito novo que tenho uma apetência natural para o desporto, com a exceção do futebol. Fui estimulado a praticar várias modalidades como o karaté, o judo, a patinagem, o voleibol, o futebol (de curta duração), o ciclismo, a natação, o atletismo, o andebol e o basquetebol. Por fim, apareceu a canoagem que inicialmente praticava em simultâneo com o basquetebol. Lembro-me de acabar uma prova local de canoagem e em seguida ir para um jogo de basquetebol. Terminei a relação com o basquetebol após a participação num campeo­nato regional da modalidade onde, depois de concluído, fui chamado a pertencer à seleção regional. Este aumento de compromisso não era compatível com a minha ambição de ser campeão nacional de canoagem.

Entre os primeiros lugares no cam­peo­nato regional açoriano e as mais re­centes medalhas nas competições internacionais, há uma travessia “a remos” de mais de uma década. Co­mo resumiria este notável percurso desportivo?
Poderia resumir em muito esforço, criação de grandes amizades, pais e irmãos sempre presentes e uma boa dose de loucura. Quando falo em esforço é porque o talento de nada vale se não o estimularmos e o fizermos maturar e dar frutos. Além disso, conheci os meus melhores amigos no contexto do desporto, sem eles não conseguiria estar tão longe de casa desde tão tenra idade, desde os meus 15 anos, para poder treinar com os melhores.
A presença da família foi outro fator fundamental no meu percurso, pois tive sempre o apoio daqueles que me são mais queridos, nunca me “cortaram as asas”.
E realmente foi preciso uma pitada de loucura para ingressar num desporto pouco desen­volvido na região, treinar sozinho, sair de casa tão novo, dedicar tanto tempo a uma atividade com pouca longevidade e escassa perspetiva de estabilidade financeira…
Qual é o momento mais marcante, até à data, da sua carreira na canoagem?
Foi em 2005, no Festival Olímpico da Juventude Europeia. Foi o primeiro ano em que fui chamado a participar nos trabalhos da seleção nacional de cadetes. Por sorte, a nossa primeira internacionalização foi uma espécie de Jo­gos Olímpicos para a juventude, participei em três provas: K4 1.000 (metros), onde nos classificamos em quarto lugar, K2 500, onde obtivemos o quinto lugar, e por fim, no último dia de provas, K4 500, onde nos sagrámos campeões da competição. Foi um momento repleto de emoção.

Em 2016, foi eleito o atleta masculino do ano da Universidade do Porto. Como en­cara esta distinção?
Já tenho um longo percurso no desporto universitário. Só este ano consegui quatro títulos de campeão nacional universitário e ainda participei no mundial universitário que se realizou em Montemor-o-Velho. A distinção de atleta masculino do ano da Universidade do Porto é a cereja no topo do bolo. Penso ser um reconhecimento prestigiante dentro da universidade, pelo qual sou felicitado por professores, funcionários e colegas.

Quais são as suas metas para os próximos tempos? Entre estas, in­cluem-se eventuais aspirações olímpicas?
Nos últimos tempos houve uma mudança gradual de paradigma na minha vida, no sentido em que o desporto cada vez mais se torna no segundo plano e a carreira académica/profissional no primeiro plano. Neste momento, treino para ajudar o meu clube e universidade nas competições nacionais, o que me permite obter títulos de campeão nacional. As aspira­ções internacionais são cada vez mais escassas dado que o foco está na minha formação profissional. Os Jogos Olímpicos sempre foram o sonho nunca alcançado, não pondo de parte a eventualidade de isso vir a acontecer por acaso do destino. Espero, no entanto, viver de perto uma experiência olímpica, nem que seja co­mo espectador in loco.

Portugal tem vindo a destacar-se na canoagem. Além da meritória presença nos últimos Jogos Olímpicos (Rio de Janeiro 2016), o atual campeão europeu em K1 (1.000 e 5.000 metros) é o português Fernando Pimenta. Como co­menta a presente conjuntura nacional da modalidade que pratica?
Portugal é um país com pouca população onde encontrar talentos é menos provável. Esta geração atual de campeões impulsionou a modalidade de um modo nunca antes visto. O grande porta-estandarte da canoagem na­cional é o Fernando Pimenta, com o qual te­nho o privilégio de conviver de perto. É o atleta com mais medalhas internacionais, de sempre, no desporto português e detentor do melhor resultado da história da canoagem em Jogos Olímpicos. Atletas como ele, Emanuel Silva, João Ribeiro e David Fernandes tornaram a canoagem numa referência a nível internacional. No plano interno, mostram aos mais jovens que é possível alcançar lugares de destaque internacionais e levar as cores do país aos lugares mais altos do pódio.
Que fatores considera essenciais para os canoístas portugueses poderem alcançar resultados ainda mais ambiciosos?
A simbiose entre o desporto e o plano escolar/universitário ainda tem muito que evoluir, as escolas, as universidades e as federações devem criar linhas de comunicação que facilitem a vida dos atletas. Em termos de ingresso ao ensino superior, penso que deveria existir uma distinção bem definida entre atletas de desportos individuais e desportos coletivos, bem como uma categorização por escalões em função do currículo do atleta. Não é igual sob o ponto de vista de tempo dedicado à modalidade um atleta ter uma participação internacional ou ser medalhado em europeus e mundiais. Outro fator que é necessário ter em conta é a vida pós-carreira desportiva. Há que criar condições para que os atletas que defendem as cores nacionais não sejam deixados ao abandono após terem alcançado o seu propósito desportivo. Como nação não po­demos permitir que ex-atletas internacionais se ponham na situação de ponderar vender as medalhas dos tempos de glória para obter mais algum rendimento. Como já foi noticiado nos meios de comunicação nacional.

No plano académico, concluiu em 2013 o mestrado em Psicologia, na Universidade do Minho, e atualmente é aluno do quarto ano do curso de Medicina Dentária, na Universidade do Porto. Como explica este volte-face na sua inclinação profissional?
Todas as decisões na minha vida foram in­fluenciadas pela prática da canoagem. Realizei o décimo segundo ano em Braga para estar perto do meu antigo clube, de seguida tentei ingressar em Medicina e Medicina Dentária na Universidade de Coimbra. Não fui bem-sucedido, pois nesse ano, para meu azar, as regras para o ingresso dos atletas de alta competição foram alteradas e a minha média de catorze já não era suficiente. Estive um ano inscrito em Engenharia Física na Universidade de Coimbra para frequentar a Residência Universitária para Atletas de Alta--Competição de Montemor-o-Velho. Depois, inscrevi-me em Psicologia na Universidade do Minho para estar mais perto do meu atual clube, o Clube Náutico de Ponte de Lima. No fim da licenciatura em Psicologia, disse aos meus pais que o meu interesse continuava a ser a Medicina Dentária, ao que eles responderam que primeiro teria que acabar na íntegra o curso de Psicologia e no final, se ainda fosse essa a minha intenção, iria para Medicina Dentária. Em 2013, acabei o mestrado integrado em Psicologia e comecei o atual percurso na área da Medicina Dentária.

Em que medida os conhecimentos que adquiriu na área da psicologia poderão contribuir para a sua futura carreira de médico dentista?
Penso ter aprendido alguns conceitos e técnicas que me ajudarão como médico dentista. Para ser sucinto, exponho dois conceitos que, para mim, são fundamentais. Primeiro, a nossa competência de nos descentralizarmos, isto é, a capacidade de nos colocarmos sob o ponto de vista do outro, seja este colega, funcionário ou paciente. Segundo, a nossa motivação deve ser intrínseca, isto é orientar a nossa ambição sempre para sermos melhores profissionais ao serviço dos outros e da profissão.
Tem preferência por alguma especialidade da Medicina Dentária?
De momento estou a começar a ter contacto prático com as diferentes áreas da Medicina Dentária. Tento tirar proveito de todas as mi­nhas experiências e absorver o máximo de conhecimento. Claro que há sempre algo que nos atrai mais, quer seja pela nossa experiencia prévia ou pelo que vemos ou ouvimos falar. As áreas da ortodontia e da reabilitação oral apresentam-se como as mais apelativas, mas ainda tenho um longo caminho a percorrer de proximidade com toda a Medicina Dentária para criar preferências.

Considera que a oferta existente em termos de formação continuada/pós-graduada satisfaz as necessidades dos estudantes do setor dentário?
Os estudantes do setor dentário têm uma panóplia de formações continuadas/pós-graduações ao seu dispor no final do seu mestrado integrado. Todavia, esta oferta não vem de forma fácil, sendo que as quantias monetárias de ingresso são por vezes muito elevadas para alguém que está a começar no mercado de trabalho ou que necessite previamente destas formações para arranjar emprego. Como aluno do quarto ano ainda não me informei, de modo concreto, sobre o que há disponível no final do curso, nem o seu custo, mas espero que as instituições que oferecem este tipo de formações continuadas/pós-graduações criem soluções de pagamento aceitáveis para que ninguém fique privado de as frequentar e tornar-se num melhor profissional.

Para terminar, como antecipa ou perspetiva o futuro da Medicina Dentária em Portugal?
Portugal tem um futuro risonho pela frente. É verdade que formamos profissionais a mais de acordo com as necessidades do país, mas é uma formação de qualidade, reconhecida nacional e internacionalmente. Quanto ao modo de pensar, estamos a viver numa era de especialistas, ou seja, as pessoas são incentivadas a ter verdadeiramente conhecimento sobre determinado assunto. Sendo assim, penso que o futuro ca­minha cada vez mais para clínicas onde teremos especialistas de cada área da Medicina Dentária e onde se articulam esforços para um plano de tratamento multidisciplinar. Ao mesmo tempo penso que os médicos dentistas generalistas terão sempre um lugar de relevo elevado dado o panorama socioeconómico na­cional, e a procura de qualidade de tratamento a preços mais acessíveis.

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