Nº80 JUNHO 2017

“Há cada vez mais jovens médicos dentistas com vontade de participar em ações solidárias”

  • Miguel Pessanha, presidente da Associação de Estudantes da Universidade Fernando Pessoa
  • 07 de Jun, 2017

Miguel Pessanha, presidente da Associação de Estudantes da Universidade Fernando Pessoa

Como surgiu a ideia de criar uma bolsa de voluntariado na Universidade Fernando Pessoa (UFP)?
A ideia surgiu quando estava a fazer a mesa redonda para as décimas sextas jornadas de Medicina Dentária da Universidade Fernando Pessoa. Numa reunião com o doutor Mi­guel Pavão (presidente e fundador da organização não governamental Mundo a Sorrir), demonstrei-lhe a minha vontade de fazer um projeto de responsabilidade social com o intuito de reverter os lucros do congresso para uma espécie de fundo para pessoas carenciadas na Medicina Dentária. Depois de ter investigado e observado vários exemplos de universidades sediadas nos Estados Unidos, cheguei à conclusão de que a Mundo a Sorrir podia aparecer aqui como a primeira parceira e criar o primeiro voluntariado internacional de Medicina Dentária da Universidade Fernando Pessoa, tendo como organizador a Associação de Estudantes.

Quais são os principais contornos deste projeto e que países serão abrangidos (numa fase inicial e a médio prazo)?
Isto é um projeto que vai iniciar-se este ano, as jornadas foram um sucesso e penso que o lucro vai ser suficiente para criarmos talvez duas bolsas para o voluntariado. Assim sendo, como este é o meu último ano como es­tudante, penso que este será um projeto de longo prazo, que se desenvolverá através da transmissão de co­nhecimentos com o apoio de uma equipa de ou­tros anos do curso, que está também envolvida nesta iniciativa. Relativamente aos países abrangidos, a Mundo a Sorrir é a responsável pela parte logística da organização, pelo que os países com os quais eles trabalham serão à partida selecionados, nomeadamente Moçambique e Guiné-Bissau, entre outros países africanos de língua portuguesa.

Que significado atribui ao facto de a bolsa de voluntariado contar com o en­volvi­mento da Mundo a Sorrir?
Como disse anteriormente, esta bolsa foi criada tendo como base uma variedade de exemplos de outras instituições e organizações não governamentais. A Mundo a Sorrir apareceu aqui, com o doutor Miguel Pavão (também ex--aluno da Universidade Fernando Pessoa) co­mo um exemplo a seguir.

Quais são as suas expectativas relativamente ao processo de candidaturas que se iniciou em maio? Espera-se uma forte adesão?
O feedback é bastante positivo, de tal forma que até estamos a pensar limitar o número de candidaturas devido a esta grande adesão. É importante realçar que a bolsa é ex­clusiva para alunos finalistas e formados na Universidade Fernando Pessoa, por tanto para médicos dentistas.
Na sua opinião, que importância assume a experiência em ações de voluntariado na formação (e mesmo na futura carreira profissional) dos estudantes de Medicina Dentária?
Penso que este tipo de ações de voluntariado apelam à parte humana do médico dentista de forma a estimular o conhecimento na vertente profissional, mas também na ajuda ao desenvolvimento. Contribuem pa­ra consciencializar que existem alturas em que o médico dentista, como profissional de saúde, tem que saber dar.

Considera que as novas gerações de estudantes e médicos dentistas estão suficientemente sensibilizadas para a causa do voluntariado ou acha que ainda há um caminho a percorrer neste domínio?
Aqui tenho que voltar a referir a Mundo a Sorrir, pois foi das primeiras ou até mesmo a primeira organização a dar este passo da sensibilização do voluntariado internacional. Também temos o exemplo do PASOP (Projeto Ambulatório de Saúde Oral e Saúde Pública) da Universidade Fernando Pessoa, que faz ações a nível nacional na promoção da saúde oral pública.
Posso dizer que há cada vez mais jovens médicos dentistas com vontade de participar em ações solidárias, tanto no plano na­cional como no estrangeiro.
À margem deste projeto internacional de voluntariado, quais são as atuais prioridades da Associação de Estudantes da UFP?
Neste momento, a Associação de Estudantes está a trabalhar em dois grandes projetos. O primeiro prende-se com a criação do gabinete de apoio ao aluno internacional (devido à internacionalização da universidade) com o objetivo de tentar melhorar o apoio a estes estudantes que vêm de fora e que muitas vezes sentem dificuldades de integração.
Por outro lado, temos em marcha outro grande projeto que é a criação de um cartão de saúde para estudantes com o apoio do Hospital-Escola da Universidade Fernando Pessoa, em Gondomar.

Do seu ponto de vista, que en­tra­ves ou dificuldades enfrentam os finalistas de Medicina Dentária quando iniciam a carreira de médico dentista? Que medidas poderiam facilitar o in­gresso na vida profissional?
A verdade é que a nível nacional o mercado de médicos dentistas encontra-se um pouco saturado. Os jovens médicos dentistas que começam a sua carreira (obviamente com pouca experiência) têm dificuldade em arranjar espaço nas clínicas e volume de trabalho para ganharem experiência e evoluírem.
Penso que o futuro passa pela vertente da especialização. Esta é certamente uma me­dida que poderá oferecer vantagens ao mercado profissional.

Que balanço faz das recentes Jornadas de Medicina Dentária da UFP?
A nível organizacional, correu tudo na perfeição. Cada vez mais existe uma procura por parte dos alunos em tentar, desde cedo, manterem-se informados. Também devido a um trabalho das edições anteriores, temos mais propostas por parte dos patrocinadores para estarem presentes, o que nos permite melhorar ainda mais o conteúdo programático do congresso e oferecer umas jornadas de excelência.

De um modo geral, como comenta o atual panorama da Medicina Dentária em Portugal e quais são os seus votos para o futuro da profissão?
Uma coisa que não podemos contornar é o facto de existir um excedente de médicos dentistas em Portugal; a profissão está saturada. Julgo que a classe tem de estar unida e defender os seus direitos como médicos dentistas.
Por outro lado, por alguma razão somos médicos dentistas e não dentistas, temos a vertente médica bem presente e a Medicina Dentária não pode ser passada para segundo plano na saúde em geral. No en­tanto, com este projeto piloto da implementação de profissionais nos centros de saúde e com a tentativa de integração da Medicina Dentária no Serviço Nacional de Saúde, vejo com bons olhos a perspetiva da Medicina Dentária poder passar para primeiro plano no que diz respeito à saúde dos portugueses.
 

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