Nº80 JUNHO 2017

"A injeção de células mãe para tratar a xerostomia é uma técnica cómoda para o paciente e de baixo risco"

  • Jonas Nunes, diretor do Instituto do Hálito do Centro Médico Teknon de Barcelona (Espanha)
  • 07 de Jun, 2017

Jonas Nunes, diretor do Instituto do Hálito do Centro Médico Teknon de Barcelona (Espanha)

Como está a evoluir o paciente que foi submetido a esta intervenção? Quando se esperam obter os resultados definitivos?
Sob o ponto de vista pós-operatório, a evolução foi positiva, tal como se esperava. Observou-se um pouco de edema na zona submandibular bilateral, mas foi disseminado ao longo de uma semana. O paciente referiu pouco incómodo. No que respeita ao sucesso clínico do procedimento, estamos a monitorizar a sua função salival através de técnicas imagiológicas, sialometrias e escalas subjetivas. Por aspetos intrínsecos à biología celular associada com a medicina regenerativa, deveria observar-se a formação de novo tecido funcional ao cabo de dois ou três meses. Por agora, retiramos simplesmente a conclusão de que a injeção de células mãe para tratar a xerostomia é uma técnica cómoda para o paciente e de baixo risco. Estamos a trabalhar com uma equipa de investigação da Universidade de Copenhaga (Dinamarca), pelo que aguardamos os resultados com expectativa mas também com moderação.

Que outras alternativas terapêuticas se debatem para tratar a xerostomia dos pacientes submetidos a radioterapia?
Dependendo de uma série de fatores, entre os quais destacaria a dose e a frequência da radioterapia aplicada, observamos em alguns casos uma destruição muito extensa e a contração das glândulas salivares irradiadas. Os tratamentos sintomáticos, tais como os estímulos de sabor (produtos que oferecem um sabor amargo ou ácido), os estímulos mecânicos/masticatórios (tipo pastilha elástica) e o uso de preparados de saliva artificial costumam revelar-se não satisfatórios para a maioria dos pacientes que nos são referidos. Com o tratamento a longo prazo com fármacos simpaticomiméticos (pilocarpina e cemivelina) e com a eletroestimulação das glândulas salivares com aparatos específicos para este efeito obtivemos resultados mais ou menos satisfatórios e de longa duração; no entanto, são muito variáveis e em alguns casos nulos, como sucedia no paciente tratado por esta técnica inovadora. Os simpaticomiméticos precisam de um controlo mais exaustivo da dose a tomar, de forma que se evitem os efeitos colaterais. Não obstante, quando nos resta muito pouco tecido, a sua estimulação é quase sempre insuficiente. Propusemo-nos, neste casos mais extremos, optar pela regeneração em vez da estimulação.
De que forma as células mesenquimais do tecido adiposo podem recuperar a secreção de saliva? Como funciona este processo?
Basicamente, é uma técnica que obedece aos princípios da medicina regenerativa, atualmente aplicada no centro onde trabalhamos, o Centro Médico Teknon, e com excelentes resultados, por exemplo, na regeneração dos tecidos articulares de deportistas de elite. As células do nosso paciente extraíram-se através de uma liposucção e em laboratório foram isoladas, expandidas e concentradas. Ao possuírem uma capacidade diferenciadora, espera-se que depois de enxertadas, assumam a função do tecido recetor, neste caso tejido glandular salivar. Ambas as injeções, aplicadas nas glândulas salivares sub­man­dibulares direita e esquerda, transportavam uns 70 milhões de células mesenquimais como tentativa de conseguir uma terapia celular tanto no plano morfológico como no funcional. Uma via que procuramos investigar é a aplicação desta técnica durante o tratamento com radiação, seguindo o princípio de que mais vale prevenir que curar.

Que condições se devem dar para levar a cabo este tipo de intervenção e quem deve efetuá-la?
Há várias condições, mas destacaria a segurança – o estrito conhecimento e o cumprimento de todos os protocolos de segurança relacionados com a terapia celular – e uma equipa experiente. A colaboração da Agência Espanhola de Medicamentos e Produtos Sanitários e o traba­lho exaustivo da equipa do Instituto de Terapia Tissular foram essenciais. Sobre quem deve efetuá-la, ao tratar-se de uma técnica pionera, creio que ainda não há guidelines. Na minha opinião, há três figuras que são imprescindíveis: um estomatologista/médico dentista especializado em Medicina Oral para o diagnóstico e a condução do caso desde um ponto de vista clínico, um cirurgião com experiência na injeção guiada por ultrasonografia e, naturalmente, um reumatologista apoiado por um instituto de terapia regenerativa. Esta primeira injeção foi possível graças à intervenção dos doutores Robert Soler e Jordi Coromina, ambos diretores no Centro Médico Teknon e expoentes de grande renome na Medicina Regenerativa e na Otorrinolaringologia, respetivamente.

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