Nº82 SETEMBRO 2017

"Estamos a atravessar uma época em que a investigação nos traz conhecimentos extremamente úteis, cujo benefício maior são os ganhos em saúde oral da população"

  • Lídia Veludo, higienista oral e presidente da associação “Miúdos otimistas, miúdos saudáveis” (MOMS)
  • 06 de Oct, 2017

Lídia Veludo, higienista oral e presidente da associação “Miúdos otimistas, miúdos saudáveis” (MOMS)

Quando e como surgiu a associação “Miúdos otimistas, miúdos saudáveis (MOMS)?
A MOMS, como associação sem fins lucrativos, nasceu em janeiro de 2014 após a implementação do projeto EcoEscovinha. Surgiu da necessidade de dar um enquadramento associativo a este projeto, que já estava a dar que falar!

Qual é o público alvo desta iniciativa e quantas pessoas já foram abrangidas?
O público alvo é a população em geral. No entanto, a forma como o atingimos, até este momento, tem sido através das escolas e instituições. O EcoEscovinha está presente em cerca de cem escolas e agrupamentos. O projeto envolve ações de educação para a saúde, ambiente e cidadania. Desde o seu lançamento já foram abrangidas, direta ou indiretamente, mais de cinco mil pessoas.

Fale-nos da equipa de profissionais que está envolvida nesta ação de voluntariado.
Pois… essa é uma questão interesante. Atualmente, fruto de alguns ajustamentos ligados a aspetos económicos, a equipa no terreno é constituída apenas por mim!

Que balanço faz da atividade desenvolvida até aqui pela MOMS?
A MOMS atualmente tem um único projecto que é o EcoEscovinha, embora tenha como propósito realizar outras atividades na área do desenvolvimento da literacia em saúde e ambiente.
O balanço é francamente positivo, tendo em vista as limitações no plano dos recursos humanos.

No passado dia 9 de junho, realizou-se em Queluz (Lisboa) o evento “Toothbrush Lo­vers”, que aspirava conquistar o estatuto de maior aula de higiene oral para o Guinness World Records. Que balanço faz dessa jornada?
Atingimos o objetivo geral que era bater o recorde da “Maior aula de higiene oral”, com 1.564 participantes. Dentro dos objetivos específicos, como sensibilizar para a melhor utilização da escova de dentes, a sua troca regular e o envio para reciclagem, o sucesso foi igualmente atingido, com a recolha de 1.060 quilos de escovas usadas.
Acima de tudo, o êxito de qualquer projeto passa pelo envolvimento das pessoas e, nesse aspeto, temos muito a agradecer aos colaboradores fantásticos que acreditaram e acreditam que podemos tornar este nosso planeta muito mais sorridente e saudável.
Sem o apoio inestimável da Câmara Municipal de Sintra, seria muito mais difícil organizar esta imensa logística que é sensibilizar e transportar os alunos das escolas do concelho. Agradeço também à Cu­raprox, pela oferta das escovas de dentes a todos os participantes.
Por outro lado, o Regimento de Arti­lharia Anti-Aérea, de Queluz, com a mobilização de esforços e alterando o seu funcionamento, acolheu os participantes de forma exemplar.
Agradeço a todos os parceiros que disseram sim desde o primeiro momento e que marcaram a sua presença com atividades pedagógicas e lúdicas, com o objetivo de receberem os participantes até à realização da “Maior aula de higiene oral”. Foram eles a Direção-Geral de Saúde, a Saúde Oral na Biblioteca Escolar, a LaserFoot, com os seus insufláveis e minitrampolins, a TratoLixo, a The Greatest Candle e os agrupamentos de escolas.

Estão previstas novas ações de sensibilização, a curto ou médio prazo, com a chancela da vossa organização?
Para além do trabalho direto com as escolas e instituições, o EcoEscovinha está presente em alguns eventos com impacto ao nível da saúde e do ambiente, tais como alguns congressos do setor e o Green Fest, entre outros.
Um dos objetivos da MOMS é criar parcerias com a comunidade científica e outras entidades. Em que medida se traduz essa cooperação?
As parcerias têm sido fundamentais para a expansão e o crescimento do EcoEscovinha, tanto ao nível do apoio científico como no desenvolvimento das suas inúmeras intervenções no terreno.

A sua intervenção na área do voluntariado valeu-lhe o “Prémio higienista oral do ano”, que lhe foi atribuído no último congresso da Associação Portuguesa de Higienistas Orais. Como encara esta homenagem?
Na realidade, não estava à espera do prémio, foi uma agradável surpresa. Trata-se de um reconhecimento pela classe profissional o que tem um saborzinho muito especial e deixa-me orgulhosa em ser higienista oral.
Em Portugal continuam a ser escassos os movimentos de voluntariado na área da saúde oral. Como é que se pode inverter esta tendência e reforçar a presença de organizações sem fins lu­crativos neste campo?
Desde sempre que interiorizei a máxima: “não basta dar a cana, é preciso ensinar a pescar”. Por isso, desde que me lembro estive sempre associada a este tipo de movimentos de uma forma mais ou menos regular.
Antes do EcoEscovinha, já desenvolvia ações de promoção e educação para a saúde nas escolas da zona de Massamá (Lisboa).
Com a criação da associação, demos um carácter mais formal aos projetos. Aqui pode residir a primeira dificuldade, pois implica investimento. De qualquer modo, na minha opinião, as vantagens são imensas mesmo a nível clínico, tendo em vista que quando se aumenta a literacia os resultados são francamente melhores.

Que diria para motivar ou­tros colegas a aderirem à causa do voluntariado?
Na minha perspetiva, o crescimento pessoal e profissional é enorme. Trata-se de um dever de cidadania.

Quando se fala de prevenção das doenças orais, na sua opinião qual é a principal mensagem/recomendação que deve ser transmitida à comunidade em geral?
Cada vez mais se reconhece a importância de uma boa técnica de remoção do biofilme que é a placa bacteriana através da escovagem regular e da utilização de instrumentos interproximais como o fio/fita e/ou escovilhão. Este é o caminho...

Para terminar, que apreciação global faz da presente conjuntura da Medicina Dentária nacional?
Esta é a pergunta mais complicada que me fez. Na minha opinião, os profissionais que trabalham na área da saúde oral continuam muito fechados nos seus mundos onde a partilha de conhecimento é quase um tema tabu. Neste contexto, cria-se o ambiente ideal para o aproveitamento da falta de informação da população com intervenções que, em muitas situações, estão longe de estarem acordo com a ética profissional.
Apesar de tudo, estamos a atravessar uma época em que a investigação nos traz conhecimentos extremamente úteis, cujo benefício maior são os ganhos em saúde oral da população. É esse o meu foco.
 

Si quieres compartir...