Nº85 DEZEMBRO 2017

A ANEMD apresenta-se agora como um novo elemento de discussão na Medicina Dentária

  • Diogo Caetano, presidente da Associação Nacional de Estudantes de Medicina Dentária (ANEMD)
  • 24 de Ene, 2018

Diogo Caetano, presidente da Associação Nacional de Estudantes de Medicina Dentária (ANEMD)

Após um longo período desprovida de um quadro legal e sem intervenção na comunidade da Me­dicina Dentária (pelo menos no plano mediático), a ANEMD surge agora com renovado fôlego e novos corpos so­ciais. A que se deve este relançamento e em que mol­des irá funcionar?
Sendo certo que já existiram outras versões da federação que agora criámos, e algumas até com o mesmo no­me, a verdade é que nenhuma outra se apresentou com o nível organizacional que agora vemos nem com a en­volvência ampla de to­das as associações e nú­cleos re­pre­sentantes dos es­tu­dan­tes de Medicina Dentária.
Outras tentativas de formação de uma federação do gé­­nero ficaram aquém pela vo­latilidade demonstrada, so­­frendo constantes alterações quer de nome, quer mesmo de estrutura e forma de funcionamento. Uma instituição deste tipo precisa de ser estável.
O projeto que em julho se concretizou é algo completamente diferente e que vem colmatar as falhas do passado. Desta vez, todas as associações e os nú­­­c­leos representantes de estudantes de Medicina Dentária portugueses participaram de perto em todo o processo de criação da ANEMD. Ainda que duas delas não tenham tido possibilidade de formalizar a sua integração na associação por ques­tões de carácter logístico e legal, mantiveram-se envolvidas no processo mesmo após a constituição. A atual direção, ainda enquanto lista candidata e mesmo após a tomada de posse, manteve e mantém sempre um contacto estreito com estas associações que têm demonstrado a intenção de con­cluí­rem o seu processo de integração ainda durante este mandato, após a conclusão dos trâmites le­gais que se lhes tinham afigurado como impedimento.
A criação desta nova associação deve-se, sem dúvida, ao contexto que se vive na Medicina Dentária portuguesa e da preocupação dos estudantes com o seu futuro, pelo que esse será necessariamente um tópico de discussão neste mandato.
Na sua opinião, que papel poderá desempenhar a ANEMD no atual contexto da Medicina Dentária nacional?
A associação terá um papel preponderante na definição do futuro da classe. Todas as entidades presentes na cerimónia de tomada de posse desta direção, que decorreu em Coimbra, sublinharam esse ponto. A ANEMD apresenta-se agora como um novo elemento de discussão na Medicina Dentária. A partir de agora, os estudantes tomarão o seu lugar à mesa e contribuirão para a melhoria, não só do ensino, mas também ao nível da classe profissional, visto que este será o futuro para a grande maioria dos agora estudantes.
O contexto atual é decisivo, vai exigir-se dos intervenientes com poder de decisão medidas corajosas, céleres e decisivas para que se possa garantir a sustentabilidade da classe.

Um dos problemas flagrantes da classe prende-se com a pletora profissional. Parti­lha da opinião de que é urgente reduzir o numerus clausus no ensino superior em Medicina Dentária?
É inegável que em Portugal temos um excesso de profissionais, aproximamo-nos do dobro de médicos dentistas por habitante do que o recomendado (segundo dados da Organização Mundial da Saúde), o que tem levantado um grave problema aos recém graduados. Há profissionais em situações de denominado “subemprego” porque o mercado de trabalho está saturado. E está saturado porque neste momento não se adequa às necessidades da população.
A ANEMD defende que é urgente uma redução dos numerus clausus para que haja uma adequação do número de profissionais formados ao que são as reais necessidades da população. Neste momento, temos recursos valiosos que estão a ser subaproveitados. Segundo o Eurostat, formámos em 2015 – não há dados mais recentes – mais médicos dentistas (um total de 690) que a Itália (607), que tem uma po­pulação seis vezes superior à nossa.
Este ritmo de formação, a ser perpetuado, vai em breve criar problemas também ao nível do ensino. As escolas de Medicina Dentária do pais estão concentradas em quatro cidades, sendo que em duas delas se concentra a maior percentagem de estudantes. Esta concentração leva a que mais do que uma instituição de ensino esteja inserida no mesmo contexto populacional, o que vai originar, mais tarde ou mais cedo, uma escassez de pacientes para os estudantes dos anos clínicos. É essencial fazer um planeamento da formação em saúde de forma a que se garantam as condições de ensino adequadas à formação médica, nomeadamente o contacto com os pacientes.
Mas a redução dos numerus clausus não é suficiente, porque do que falamos é de uma Medicina Dentária mais adaptada às necessidades da população e a população portuguesa precisa de um acesso mais universal aos cuidados médico-dentários proveniente do Serviço Nacional de Saúde. É a este que compete assegurar os cuidados básicos de saúde da população e no que concerne à saúde oral esta tem sido em grande medida descurada pelo Estado. É com agrado que a ANEMD vê o Estado comprometido em alargar o projeto de integração dos médicos dentistas no Serviço Nacional de Saúde, ficando este ainda aquém do que a população necessita, sendo ne­cessário alargar este a toda a população.

Do seu ponto de vista, que entraves enfrentam os finalistas de Medicina Dentária quando iniciam a carreira de médico dentista? Que medidas poderiam facilitar o ingresso na vida profissional?
As dificuldades dos recém graduados são sobejamente conhecidas, a saturação do mercado de trabalho leva a condições de contratação precárias e a situações de subemprego que têm sido perpetuadas pelo sistema, que não tem encontrado soluções para estes profissionais. Esta situação agravou-se com a crise económica que levou a uma diminuição da procura dos cuidados médico--dentários pela redução do rendimento disponível da população e pelo carácter maioritariamente privado da profissão.

Que outras prioridades figuram na agenda dos estudantes de Medicina Dentária?
A ANEMD tem como prioritária a defesa de políticas sociais que protejam os estudantes economicamente mais desfavorecidos durante os seus estudos.
Todos sabemos que estudar Medicina Dentária implica um investimento avultado. Este investimento é de tal magnitude que chega mesmo a ultrapassar o valor das propinas do ensino superior público, onde o ensino se propõe como tendencialmente gratuito, no entanto, aquando da atribuição das bolsas de estudo e do cálculo do seu valor apenas o valor das propinas é tido em consideração.
A ANEMD defende que os custos de material necessários à frequência do curso su­perior de Medicina Dentária de­vem passar a ser incluídos no algoritmo de atribuição de bolsas e na fórmula do cálculo do seu valor.
Esta medida vai proporcionar um acesso mais universal ao ensino superior, visto que permite aos estudantes com menos poder económico frequentarem o curso em pé de igualdade com os restantes, além de que implicaria uma maior transparência das instituições no que concerne as exigências de material aos seus estudantes de forma a que quem ingressa no curso, mesmo que não venha a ter acesso a bolsa para custear esse material, passará a ter noção, desde o primeiro momento, do investimento que será necessário. Presentemente, o que se verifica é que muitas vezes os estudantes são apanhados de surpresa com a fatura do material quando chegam ao ano pré-clínico.

Está prevista a realização de um congresso na­cional sob a égide da ANEMD a curto ou médio prazo? Em caso afirmativo, que pormenores (da­ta, local programa, etcétera) pode adiantar sobre este evento?
A ANEMD assume como sendo um dos seus papéis o complemento da formação dos estudantes; para tal planeámos a realização de palestras e work-shops práticos nas várias instituições de ensino médico-dentário associadas da ANEMD.
Consideramos que a execução de um fórum de parti­lha de conhecimento científico, como um congresso, também não pode passar ao lado deste primeiro mandato, pelo que temos pla­nea­do realizar um congresso nacional de estudantes de Medicina Dentária em abril do próximo ano. Mais informa­ções serão divulgadas brevemente.
Poderão manter-se informados quando forem divulgadas datas e locais de todas as nossas atividades na nossa recém inaugurada página eletrónica: www.anemd.pt.

Na sua qualidade de dirigente estudantil, acha que a experiência em ações de voluntariado pode fazer a diferença na formação (e mesmo na futura carreira profissional) dos estudantes de Medicina Dentária?
A participação em ações de voluntariado é, na minha perspetiva, essencial para complementar a formação de um estudante, não necessariamente a nível científico, mas a nível humano e de desenvolvimento de competências que não se ensinam durante o curso. E quando falo de ações de voluntariado falo das que habitualmente todos temos em mente quando nos referimos a este tópico (as ações de voluntariado no âmbito da Medicina Dentária em comunidades desfavorecidas), mas também da participação em atividades no âmbito do associativismo. E uma vez que me está a dirigir a pergunta enquanto dirigente associativo, não posso deixar de realçar a enorme importância e o altruísmo dos dirigentes associativos que fazem parte tanto da ANEMD como das suas associações federadas. Estas últimas têm um papel importantíssimo no quotidiano dos estudantes ao fazerem valer os seus direitos e ao promoverem dentro das suas instituições uma evolução contínua do ensino de forma a ir cada vez mais de encontro às necessidades formativas dos estudantes.
O associativismo é uma forma de voluntariado que exige uma dedicação contínua e sacrifício pessoal que cada um faz conscientemente e sem procurar nada em troca, tal como a definição de trabalho vo­luntário implica. A conjugação da participação em atividades deste género com um curso extremamente exigente como é o curso de Medicina Dentária obriga-nos a desenvolver competências de organização e gestão de tempo que se mostram úteis em todos os aspetos da nossa vida pessoal e profissional, já para não falar da necessidade de desenvolver competências de trabalho em equipa e as relações interpessoais. A minha equipa é a prova disso mesmo, todos eles acumulam as suas funções na ANEMD com ou­tras funções de representação, quer nas associa­ções locais quer em órgãos de representação das suas instituições de ensino, o que demonstra o dinamismo que fi­ca patente a todos os que aceitam o desafio de integrar associações deste tipo. Todos o fazemos pe­los nossos colegas, para que quando acabarmos o nosso mandato deixemos a Medicina Dentária me­lhor do que a encontrámos.
E já que falamos desta matéria, não posso deixar de referir que brevemente a ANEMD abrirá concursos para que qualquer estudante possa entrar e participar como membro de uma ou várias das estruturas que vão ser criadas para se dedicarem a temas especializados.

De um modo geral, como comenta o atual pa­norama da Medicina Dentária em Portugal e quais são os seus votos para o futuro da classe?
Tal como referi anteriormente, a Medicina Dentária en­contra-se num momento decisivo em que se vai pautar o seu futuro. Vão ser precisas medidas céleres e corajosas por parte dos decisores políticos para que a Medicina Dentária continue a ser a referência a nível qualitativo que é atualmente.
Internacionalmente, o ensino da Medicina Dentária em Portugal é reconhecido como sendo de qualidade e os seus profissionais como sendo dos melhores. É necessário que todos os intervenientes com poder de decisão continuem a de­fender a manutenção destes standards acima de quaisquer outros interesses.
A Medicina Dentária tem sabido adaptar-se às mu­danças ao longo dos tempos, não tenho qualquer dúvida que também agora saberá adaptar-se e que ultrapassaremos as dificuldades que experienciamos no presente.

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