Nº85 DEZEMBRO 2017

Ambicionamos para este congresso um momento fraterno de partilha científica, clínica e pedagógica verdadeiramente interdisciplinar

  • Ricardo Dias, presidente da Comissão Organizadora do III Congresso Anual da Sociedade Portuguesa de Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial
  • 24 de Ene, 2018

Ricardo Dias, presidente da Comissão Organizadora do III Congresso Anual da Sociedade Portuguesa de Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial

A Sociedade Portuguesa de Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial (SPDOF) retoma este ano o formato do congresso anual, de­pois de uma pausa, em 2017, para a realização de dois meetings (Porto e Algarve). Em traços gerais, quais são as linhas de orientação para esta terceira edição do congresso?
Neste terceiro congresso da SPDOF temos como principal objetivo proporcionar a todos os participantes uma experiência diferenciada de partilha e com­preen­são interdisciplinar da disfunção temporomandibular (DTM), dor orofacial, bruxismo e patologia do sono. Esta foi a génese da constituição da sociedade, colocar em interrelação as diferentes áreas médicas na abordagem destas patologias, numa experiência profícua de partilha científica, pedagógica e clínica.
Os dois congressos e dois meetings passados caracterizaram-se pelo sucesso na implementação deste propósito da SPDOF, com uma avaliação muito positiva pelos participantes. Apesar de ser uma das sociedades mais jovens em Portugal, a realidade interdisciplinar dos nossos eventos e a dinâmica em­­­­­pre­endida têm sido valorizadas pelos mais distintos investigadores e clínicos nacionais e estrangeiros nesta área. Têm sido eventos sem precedentes a nível nacional e internacional, o que muito nos orgulha enquanto SPDOF, e que deixa a esta comissão organizadora que tenho a honra de presidir uma responsabilidade acrescida.
De forma a darmos cumprimento ao tema geral escolhido para esta terceira edição, iremos ter diferentes temáticas exploradas em dois auditórios a funcionar em simultâneo. Num dos auditórios teremos palestras diferenciadas mais extensas proferidas por distintos conferencistas que nos honrarão com a sua presença e que partilharão o resultado da investigação científica, aliada à experiencia clínica. No outro auditório decorrerão mesas redondas de partilha e discussão, moderados por distintos colegas das mais diversas áreas médicas (imagiologia, psicologia, reumatologia, medicina geral e familiar, terapia da fala, fisioterapia, medicina dentária) que aceitaram o de­safio desta comissão organizadora.

Qual é o tema central e que disciplinas vão estar em destaque no programa científico, tendo em mente a vertente multidisciplinar que caracteriza os encontros da SPDOF?
O tema geral será “O estado da arte em disfunção temporomandibular e dor orofacial”. Neste sentido, e tendo por base aquilo que são os conhecimentos científicos e as orientações na abordagem clínica mais recentes, é inquestionável a necessidade de uma abordagem integradora e multidisciplinar destas patologias.
O estado da arte não pode ser dissociado desta perspetiva in­clusiva e de sinergia entre as diferentes áreas do conhecimento médico. Há que ressalvar que, mais do que a interpretação multidisciplinar necessária, o fundamental é uma verdadeira implementação de uma prática interdisciplinar, ou seja, colocar as diferentes áreas médicas em interação na interpretação diagnóstica, ação terapêutica e protocolo de ma­nutenção de cada doente.
No essencial, esta comissão or­ganizadora lançou o desafio a colegas nacionais e estrangeiros das áreas da medicina dentária, fisioterapia, medicina geral e familiar, cirurgia maxilo-facial, terapia da fala, pneumologia, neurologia, reumatologia, imagiologia, psicologia e otorrinolaringologia pa­ra que, de forma interdisciplinar, pudessem clarificar o motivo pelo qual juntos podemos al­cançar mais e proporcionar aos nos­sos pacientes cuidados de saúde adequados.

Quem são os conferencistas que já confirmaram a sua presença no Porto?
A mais-valia científica e clínica é transversal a todos os distintos oradores e moderadores nacionais e estrangeiros que estarão presentes neste terceiro congresso. É para esta comissão organizadora uma honra poder contar com a sua presença, na perspetiva de que proporcionarão a todos os participantes um elevado nível científico, clínico e pedagógico.
Como palestrantes podemos confirmar a presença dos Professores Doutores Júnia Serra-Negra (odontopediatria, Brasil), Luca Guarda-Nardini (cirurgia maxilo-facial, Itália), Paulo Conti (medicina dentária, Brasil), Monje Gil (cirurgia maxilo-facial, Espanha), Roy la Touche (fisioterapia, Espanha), María Carmen Benito (medicina dentária/imagiologia, Espanha), Enrique Pozuelo (me­dicina dentária/imagiologia, Es­panha), Teresa Pinho e do Doutor Jorge André Cardoso, am­bos da área da medicina dentária.
Como moderadores das mesas redondas, onde se­rão apresentadas uma série de conferências, podemos adiantar a presença dos Professores Doutores Fátima Feleciano (psicologia, Portugal), António Pereira da Silva (reumatologia, Portugal), Teresa Paiva (neurologia, Portugal), João Carlos Winck (pneumologia, Portugal), do Mestre Ricardo Santos (terapia da fala, Portugal), do Professor Doutor António Mata (medicina dentária, Portugal), dos doutores Tiago Oliveira (fisioterapia, Portugal) e Luís Carrão (fisioterapia, Portugal).
No programa pré-congresso (8 de março), vamos promover a realização de vários workshops. Podemos já confirmar os de fisioterapia (trigger points) ministrado pelo Doutor Roy de la Touche; de medicina dentária do sono (dispositivos de avanço mandibular), ministrado pela Doutora Gabriela Videira, pelo Mestre Júlio Fonseca e pelo técnico de prótese dentária Adolfo Bernal; em imagiologia em DTM (curso teórico-prático), ministrado pela Professora Doutora Ma­ría Carmen Benito e pelo Professor Doutor Enrique Pozuelo; terapia da fala em contexto de DTM e dor orofacial, ministrado pelo Mestre Ricardo Santos; medicina dentária baseada na evidência (teórico-prático) ministrado pelo Professor Doutor António Mata; goteiras oclusais em DTM e bruxismo (teórico-prático) ministrado pelos Doutores André Mariz Al­meida e João Rua; e análise oclusal computorizada com sistema T-Scan, mi­nistrado pelo Doutor André Ma­riz Almeida e Mestre Júlio Fonseca.

Qual é a expectativa da comissão organizadora relativamente ao número de participantes e à adesão de casas comerciais?
Este ano, e assegurando a política de descentralização dos eventos da SPDOF, iremos realizar o congresso nas instalações do centro de eventos Fábrica de Santo Thyrso, em Santo Tirso, onde teremos acesso e proporcionaremos todas as condições para receber os participantes. Quantos? Achamos que a pertinência do tema, a qualidade do programa científico que preparámos e as várias temáticas a serem exploradas irão despertar o interesse de muitos profissionais e alunos das mais variadas instituições de ensino. Assim, temos a expectativa de ter uma adesão elevada das mais diversas áreas médicas e do co­nhecimento, na certeza de que tudo faremos para proporcionar mais um evento de referência a nível nacional e internacional.
A qualidade do programa científico e o projeto apresentado tem sido valorizado pela indústria e casas comerciais, sendo que muitos já se associaram a este terceiro congresso. Neste particular, a Câ­mara Municipal de Santo Tirso constitui-se como um parceiro ins­titucional privilegiado, que muito honra a SPDOF por toda a receptividade e pelo incentivo para com este projeto desde o primeiro momento.

À margem das sessões científicas, que ou­tros aspetos do programa merecem destaque?
Dentro dos objetivos de intervenção da SPDOF encontra-se a vertente de informação e esclarecimento ao público em geral. Numa forma de ação social e de promoção da saúde pública, a SPDOF pretende dinamizar, em sinergia com a autarquia de Santo Tirso, entidades de saúde locais e nacionais, e meios de comunicação social, uma sessão de esclarecimento à população. Pretende-se num mo­mento de encontro com a população promover uma ação de esclarecimento so­bre disfunção temporomandibular, dor orofacial, bruxismo e relação com a patologia do sono, nu­ma mesa redonda interdisciplinar onde participarão diversos profissionais de saúde das diferentes áreas intervenientes.
No final do programa científico, na noite de sábado acontecerá o jantar do congresso, para o qual queremos contar com a presença de todos os participantes e que pretendemos seja um momento de convívio, celebração e socialização entre todos.
Na sua opinião, que particularidades ou ca­racterísticas marcam a diferença entre o congresso da SPDOF e as cimeiras de outros or­ganismos do setor dentário?
Acima de tudo aquilo que mais se destaca e tem diferenciado as iniciativias promovidos pela SPDOF é o seu carácter verdadeiramente interdisciplinar. Além das diferentes especialidades e áreas da medicina dentária, temos conseguido promover a discussão e partilha dos diversos temas gerais e específicos entre os profissionais de saúde das mais variadas áreas da saúde, numa partilha saudável e profícua, sempre focalizados na necessidade de proporcionar os melhores cuidados de saúde aos nossos doentes.
Têm sido eventos sem precedentes a nível nacional, mas também internacional. Isso tem sido re­conhecido pelos vários conferencistas e representantes de outras sociedades e grupos que têm passado nos nossos eventos. No congresso de Lisboa em 2016 tivemos a honra de ter connosco o Professor Doutor Daniele Manfredini, investigador e perito mundial em disfunção temporomandibular e dor orofacial que enalteceu a capacidade interdisciplinar da SPDOF.
O mesmo sucedeu no ano passado, quer no meeting do Porto quer no do Algarve, onde personalidades como o Professor Doutor José Luis de la Hoz (ex-presidente da European Academy of Craniomandibular Disorders), o Doutor Chris Wells (presidente da European Pain Federation) e a Professora Doutora María Carmen Benito (presidente da Sociedad Española de Disfunción Craneo­mandibular y Dolor Orofacial) parti­lharam e congratularam a SPDOF pela capacidade dos seus encontros e pela multiplicidade dis­­ci­plinar de profissionais envolvidos e a interagir num mesmo evento.
A propósito, que balanço faz da atividade que tem vindo a ser desenvolvida pela SPDOF, desde a sua criação em 2014?
Apesar de ser uma sociedade muito jovem, considero que esta direção, a comissão científica da SPDOF, todos os seus membros, todos os profissionais e parceiros comerciais que têm partilhado as suas atuações e propostas se devem sentir orgulhosos pelo dinamismo alcançado. Mas, efetivamente, todos estamos conscientes que muito mais se poderá realizar, sempre focalizados naquilo que é o essencial: partilha, divulgação, esclarecimento, informação e formação para uma prática clínica baseada na vanguarda da evidência científica e com o objetivo primário de prestar sempre os melhores cuidados de saúde aos doentes.
A dinâmica científica e a capacidade da promoção da discussão e esclarecimento interdisciplinar das temáticas em torno da DTM, dor orofacial e bruxismo são hoje inegáveis em Portugal. Nesta mesma perspetiva e dinâmica, e pela relevante associação do bruxismo à patologia do sono, a recém criada Secção do Sono da SPDOF visa a promoção do estudo, investigação, ações de promoção de saúde pública e intervenção clínica interdisciplinar em torno da roncopatia e da apneia obstrutiva do sono.
Além dos congressos e meetings, a SPDOF iniciou em 2017 o seu programa de formação contínua, com a proposta de debate de temas mais específicos. As publicações científicas são também uma realidade da SPDOF, com dois livros apresentados: “Disfunções temporomandibulares: uma abordagem multidisciplinar” (2015) e “Dor orofacial e disfunções temporomandibulares: tratamento farmacológico” (2016). Este ano, será apresentada uma nova publicação acerca do tema bruxismo.
A direção da SPDOF está consciente do trabalho realizado, da responsabilidade da sua missão e da necessidade de uma promoção constante da parti­lha alargada, aberta e inclusiva entre as diversas áreas médicas. Esta dinâmica tem vindo a ser reconhecida e valorizada por diversos profissionais de referência na área, assim como por outras sociedades e grupos de estudo nacionais e internacionais. A génese da promoção da interdisciplinaridade e da partilha de conhecimento da SPDOF tem sido traduzida em vários protocolos e parcerias estabelecidos com diversas sociedades nacionais e internacionais. A nível internacional destacam-se a SEDCYDO (Sociedad Española de Disfunción Craneomandibular y Dolor Orofacial) e o GSID (Gruppo di Studio Italiano Disordini Craniomandibolari). A nível nacional, incluem-se a Ordem dos Médicos Dentistas, a Sociedade Portuguesa de Estomatologia e Medicina Dentária, a Sociedade Portuguesa de Terapia da Fala e a Sociedade Portuguesa de Fisioterapia. A partilha de conhecimento entre os membros das várias sociedades e grupos é de fundamental relevância e uma estratégia no incentivo a uma cada vez maior implementação da interdisciplinaridade.

Que importância assume, hoje em dia, a vertente da Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial no contexto da medicina dentária?
A disfunção temporomandibular e a dor orofacial são patologias heterogéneas, com uma variabilidade de expressão clínica que carecem de rigor e sistematização para um diagnóstico diferencial assertivo, assim como de uma visão e abordagem terapêutica interdisciplinar.
Sendo a DTM uma patologia com uma prevalência superior a 15 por cento na população adulta, afetando mais indivíduos do género feminino, cursando habitualmente com dor e que é potencialmente geradora de incapacidade funcional, deve representar um foco de atenção na prática clínica da medicina dentária. A dor orofacial não odontogénica é, por sua vez, o principal motivo de consulta de urgência em medicina dentária. Assim, é fundamental que o médico dentista esteja desperto para estas patologias, habilitado a realizar um diagnóstico diferencial e seja capaz de identificar fatores de risco. O diagnóstico atempado, a prevenção e uma terapêutica adequada e atempada são fundamentais na prevenção do dano e mi­nimização das se­quelas decorrentes destas patologias.
Especificamente para a medicina dentária, a principal mensagem deverá ser que as goteiras oclusais continuam a ser válidas como uma das primeiras opções para a abordagem terapêutica dos doentes com DTM (pelo seu carácter não invasivo e reversível), mas não devem ser assumidas como a única opção. O recurso à fisioterapia, psicoterapia, terapia da fala, cirurgia minimamente invasiva, otorrinolaringologia, terapia da dor, entre outras, devem ser consideradas e incluídas caso a caso no controlo da sintomatologia, na recuperação do equilíbrio funcional e na minimização das sequelas da patologia.

 

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