Nº86 FEVEREIRO 2018

“O que é um médico dentista senão um verdadeiro artista?”

  • Vanessa Martins, cantora e médica dentista
  • 20 de Feb, 2018

Vanessa Martins, cantora e médica dentista

Quando é que se iniciou no universo da música? É uma vocação recente ou remonta aos tempos da sua infância?
Não me conheço sem música, cantei pela primeira vez em público com oito anos e, desde aí, nunca mais parei, sendo vocalista de várias bandas e participando em festivais e concursos televisivos.

Efetivamente, participou em vários formatos televisivos: Ídolos, The Voice Portugal, Grande Gala de Fados. Fale-nos dessas experiências mais mediáticas...
Participei no Ídolos em 2012 e no The Voice Portugal em 2014. De ambos os formatos saí semi-finalista, foram experiências ótimas que aconselho, sem dúvida, sabendo sempre de antemão que não é um passaporte para nada, mas sim uma excelente montra de lançamento que temos de saber aproveitar. Por brincadeira inscreveram- -me, no ano passado, na Grande Gala de Fados do Porto, no Teatro Sá da Bandeira, da qual acabei por sair vencedora.

Que tipo de reportório costuma interpretar nos seus concertos (temas conhecidos do grande público e/ou originais escritos por ou para si)?
Neste momento, tenho temas originais escritos e compostos por mim, que são sempre incluídos nos concertos, mas os grandes clássicos também marcam presença nas minhas atuações.
Que lugar ocupa a música ligeira/pop na sua carreira artística?
Ao longo do meu percurso passei por vários géneros musicais, do pop ao fado.

Qual é a sua relação com o fado? Quem são os seus mentores ou “padrinhos” e, já agora, quais são as suas referências: intérpretes, guitarristas, compositores, etcétera?
O fado é relativamente recente na minha vida. Sempre foi incluído nos meus espetáculos, no entanto, só desde o triunfo na Gala de Fados é que comecei a fazer concertos exclusivamente de fado.
As minhas principais referências no fado são a eterna Amália Rodrigues, a Carminho e a Mariza. Como compositor aprecio muito o Jorge Fernando, que foi também um dos jurados da Gala de Fados em que participei.

Como encara a evolução do fado nos últimos anos, nomeadamente após o reco-nhecimento como património imaterial da UNESCO?
O fado é, sem dúvida, a expressão máxima da alma portuguesa, é uma das nossas heranças mais valiosas, como o próprio nome indica é o nosso destino. Portanto, já estava na hora de ser reconhecido como tal. Há episódios contados pelas nossas mais conhecidas fadistas nos seus concertos no estrangeiro, em países como a China, em que o público estava visivelmente emocionado no final do concerto, porque o fado é isso mesmo: emoção! Não é preciso compreender as letras, o fado sente-se.

Há algum facto particularmente memorável que a tenha marcado, até à data, no seu percurso artístico?
Penso que, para um artista, pisar um grande palco nacional é sempre um marco importante. O meu primeiro palco foi o Teatro Sá da Bandeira, na Grande Gala de Fados, seguiu-se o Coliseu do Porto e, há bem pouco tempo – e talvez seja o momento que mais me marcou –, o Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

Tem algum trabalho discográfico no mercado ou em vias de ser lançado?
Neste momento, tenho dois singles no mercado que saíram no início de 2017 e um álbum que está na fase final de gravação, com saída prevista para o primeiro trimestre deste ano.

Estão previstos concertos (ao vivo ou na televisão) nos próximos tempos?
Sim, para já estamos a programar a tour de 2018, com banda e com bailarinos. Recentemente, participei em alguns espetáculos solidários e na passagem de ano atuei em Andorra.

É difícil conjugar a profissão de médica dentista com a faceta artística?
Digamos que não é fácil, contudo, é muito reconfortante. Costumo dizer que tenho duas profissões, uma que me escolheu, que é a música, e uma que fui eu que escolhi, que é a Medicina Dentária. Neste momento, tenho clínica no Porto, onde exerço, e a música ocupa-me mais os fins-de-semana e algumas noites. Na verdade nunca estou de férias.
Considera que existe alguma complementaridade (ou correlação) entre a sua ocupação profissional e a sua carreira musical?
Sem dúvida que são complementares. O que é um médico dentista senão um verdadeiro artista? Às vezes escultor, outras vezes pintor… mas um artista! Esta veia criativa é comum a ambas as profissões.

Que motivos a levaram a enveredar pelo curso de Medicina Dentária?
Na realidade, sempre vi a música como algo que eu sou e não como algo que eu faço, e como tal tive necessidade de ter outra profissão. Sou uma apaixonada pela ciência, pela saúde, pelo corpo humano e os seus mecanismos. Portanto, desde cedo que a medicina em geral foi uma paixão e mais tarde a área da Medicina Dentária em particular.

O que mais a fascina nesta profissão?
Fascina-me o facto de termos, para além de um certo poder de curar através dos nossos conhecimentos, o poder de devolver sorrisos, e é esta a área da Medicina Dentária que mais me motiva. A forma como podemos melhorar a auto-estima das pessoas, e devolver-lhes por vezes a vontade de sorrir e de viver é extremamente gratificante.

E o que mais a preocupa na atualidade?
Estamos em crise económica, embora em recuperação, e inevitavelmente o nosso setor foi abalado também por esta conjuntura. As pessoas ainda recorrem muito ao dentista só quando sentem dor, e nesses momentos muitas vezes já é tarde demais. É fundamental apostar numa intervenção precoce, consciencializar o público de que alguns dos problemas graves de saúde podem advir de uma boca que não está sã. Neste momento, Portugal ocupa o último lugar no ranking europeu dos países que mais procuram o médico dentista, isto é grave e tem que se perceber o porquê.

Como antevê o futuro do setor da saúde oral (em geral) em Portugal?
Na minha opinião, é fundamental a intervenção governamental neste setor, algumas medidas já foram implementadas, porém, penso que se pode fazer muito mais para que possamos ser cada vez mais um país que se preocupa com a sua saúde oral.

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