PERSPETIVAS

Novo impulso no combate ao cancro oral

  • 20 de May, 2013

Portugal vai contar com uma das melhores redes mundiais na deteção precoce de lesões malignas da cavidade oral. O projeto, recentemente aprovado pelo Ministério da Saúde e formalmente anunciado por ocasião do Dia Mundial da Saúde Oral (assinalado no passado dia 20 de março), tem o nome de “Intervenção precoce no cancro oral” e resultou de três fatores fundamentais. Um deles prende-se com a existência de um programa de saúde oral (combate à cárie dentária nas crianças e jovens) implementado e bem consolidado, passível de ser alargado à área da oncologia. Outro diz respeito às elevadas taxas de incidência de cancro oral associadas a baixas percentagens de sobrevivência dos doentes até cinco anos após o respetivo diagnóstico. O terceiro fator está associado à vulnerabilidade desta doença à intervenção precoce, proporcionando não apenas a diminuição da incidência da doença, mas também o aumento da cura e da sobrevivência.

De acordo com Rui Calado, médico coordenador do programa da área de saúde oral da Direção Geral da Saúde (DGS), o projeto surge essencialmente da necessidade de diagnosticar lesões nos estádios iniciais de desenvolvimento da doença, “permitindo uma intervenção adequada e atempada nos mesmos e assegurando a eficácia dos tratamentos”. Consiste em “ganhar tempo”, em cada etapa do processo, através da identificação precoce de lesões suspeitas de cancro oral pelos médicos especialistas de medicina geral e familiar (médicos de família) e posterior encaminhamento para os médicos dentistas para confirmação clínica e realização de biopsia. “O resultado anatomo-patológico resultante da biopsia, fornecido pelo laboratório, ditará a necessidade (ou não) de intervenção cirúrgica urgente a nível hospitalar”, esclarece Rui Calado, para quem uma intervenção precoce em todas as etapas do processo “proporciona taxas de cura mais elevadas”.

O projeto mereceu, pela sua concepção, aprovação superior das estruturas do Ministério da Saúde. A fase de implementação iniciar--se-á com a construção de um módulo específico do sistema informático já existente (SISO), que permitirá o desenrolar de todo o processo. Seguir-se-á a informação aos médicos de medicina geral e familiar, o recrutamento e adesão dos médicos dentistas para a criação de uma rede de médicos aderentes ao projeto, a definição dos laboratórios de referência, a informação a nível hospitalar e a definição dos processos de pagamento. “É necessário envolver os parceiros, identificar e assumir as tarefas que cada um deve realizar, estabelecendo assim os indispensáveis compromissos”, acrescenta o coordenador do projeto. Por fim, será necessário fazer a formação específica dos operacionais aos diferentes níveis e assegurar a produção dos indispensáveis documentos informativos e normativos.

O anúncio do projeto de intervenção precoce no cancro oral foi recebido com particular satisfação pela classe dos médicos dentistas. “Com este programa vamos ter, provavelmente, uma das melhores redes mundiais de deteção atempada de lesões tumorais na cavidade oral”. Quem o afirma é o médico dentista Pedro Trancoso, Mestre em Medicina Oral e membro do Conselho Diretivo e da Comissão Científica da Ordem dos Médicos Dentistas. “Estamos habituados a campanhas de deteção do cancro do útero ou do cólon, entre outros, que são limitadas temporalmente. Neste caso, trata-se de uma campanha perpetuada ao longo do ano por uma rede já estabelecida de consultórios que vai abranger um país inteiro, de norte a sul”, su­blinha à Maxillaris Pedro Trancoso, para quem Portugal passará a ter uma “capacidade de deteção de lesões que, sinceramente, não estou a ver comparação possível em nenhuma parte do mundo”.
Este representante da OMD, que colaborou com a DGS na preparação do projeto, atribui aos médicos dentistas um papel preponderante em todo este processo, uma vez que “têm a capacidade de diagnóstico e as ferramentas adequadas, que se traduzem no bom acesso à cavidade oral. Isto torna-nos, sem esquecer o conhecimento próprio que temos da nossa área de formação, as pessoas mais indicadas para o despiste atempado destas lesões”.

OMD garante formação

Na opinião de Pedro Trancoso, “é extremamente importante” fazer um diagnós­tico atempado de prevenção, de modo a que os doentes, quando cheguem aos hospitais de referência da área oncológica, não apresentem lesões muito avançadas, como acontece hoje em dia. “Se atuarmos como parte ativa numa fase inicial do diagnóstico, será possível reduzir consideravelmente a taxa de mortalidade. Esse é o objetivo principal do programa”.

Neste contexto, a OMD quer ter um papel ativo na formação, tanto ao nível da consciencialização da população para um tumor que assume contornos preocupantes em Portugal – é o sexto mais comum com uma taxa de mortalidade a cinco anos acima dos 50 por cento – como no alerta aos profissionais do setor para o papel que podem desempenhar na despistagem das lesões, “de modo a garantir não só a sobrevivência como a qualidade de vida dos doentes”.

A prioridade passa pela formação dos médicos dentistas neste domínio para que possam ser elegíveis perante a DGS para o reencami­nhamento de doentes por parte dos clínicos gerais. “Vamos calibrar e habilitar os nossos colegas para fazerem a consulta de diagnóstico e de biopsia quando for necessário. O processo será montado muito à semelhança daquilo que existe hoje em termos de cheque- -dentista”, antecipa Pedro Trancoso, clarificando que um mé­dico dentista que queira estar envolvido neste programa “não tem obrigatoriamente que estar vinculado ao cheque-dentista que já existe”.

O contributo da APMDH

Quem também se congratula com o novo projeto nacional é a Asso­ciação Portuguesa de Medicina Dentária Hospitalar (APMDH), que desempenha há vários anos um papel destacado no domínio da prevenção do cancro da cavidade oral. Começou a preparar em 2007 (com início da divulgação em 2009) a campanha de auto-exame para prevenção do cancro oral, com o apoio institucional da Liga Portuguesa Contra o Cancro (LPCC), do Grupo de Trauma e Emer­gência e da OMD. Na sequência de um protocolo celebrado entre a APMDH e a LPCC, iniciaram-se os trabalhos preparatórios que culminaram com a inauguração da Unidade de Estomatologia e Me­dicina Dentária, no Porto, que proporciona a consulta gratuita de diagnóstico precoce de cancro oral.

Perante o anúncio do novo projeto da DGS, o presidente da APMDH, João Leite Moreira, comenta que “valeu a pena todo este trabalho” iniciado há seis anos pela associação. “Sem falsas modéstias, colocámos este assunto em discussão e as diferentes entidades têm vindo a responder. Se o projeto do Governo avançar, a excelência po­derá ser atingida se houver sensibilidade para envolver todas as instituições que se têm preocupado, efetivamente, com este flagelo e nas quais não posso deixar de incluir a APMDH e a LPCC”.

João Leite Moreira recorda que o cancro oral tem vindo a aumentar nos últimos anos em Portugal. “Esse crescimento estará associado a um aumento do consumo de álcool, tabaco e drogas em idades cada vez mais precoces, bem como a um início prematuro da atividade sexual”.

No atual contexto de dificuldade económica, em que uma fatia crescente da população poderá ter cada vez mais dificuldades em aceder a cuidados de saúde oral, o mesmo dirigente alerta para a ne­cessi­dade de “estarmos atentos e vigilantes”, porque a deterioração das condições de saúde oral “dará certamente um contributo no aumento do cancro oral no nosso país”.

A APMDH presta apoio aos pacientes no âmbito do diagnóstico precoce de cancro oral, encaminhando depois os mesmos para várias instituições, entre as quais se destacam o Instituto Português de Oncologia do Porto e a Faculdade de Medicina Dentária da Uni­versidade do Porto. Muitos doentes que padecem das mais variadas patologias oncológicas – não confinadas apenas ao cancro oral – “procuram-nos em busca de conselhos que vão desde os mais elementares cuidados de higiene oral até à área da reabilitação oral e maxilofacial”. A APMDH procura orientá-los, da forma mais adequada, mesmo no que diz respeito à reabilitação oral e maxilofacial, “tantas vezes esquecida e que deve ser proporcionada a todos, in­cluindo o doente em cuidados continuados, ainda que o tempo estimado de vida seja de semanas, dias, ou horas”, defende João Leite Moreira.

Estudo confirma escalada da doença

Em Portugal são escassos os estudos epidemiológicos sobre cancro oral e os dados estatísticos existentes não permitiram até hoje uma análise dinâmica do que está a acontecer com esta doença nas últimas décadas. Por esta razão, o médico dentista Luís Monteiro liderou um estudo sobre a “Incidência do cancro no lábio, da cavidade oral e da orofaringe em Portugal”, que foi publicado no Journal of Oral Pathology and Medicine. Este estudo, elaborado pelo Centro de Investigação em Ciências da Saúde da Cooperativa de Ensino Superior, Politécnico e Universitário (CESPU), em colaboração com o serviço de Epidemiologia do Instituto Português de Oncologia do Porto e com o King’s College de Londres (Reino Unido), apresenta o mais recente retrato destes três tipos de tumor e analisa, pela primeira vez, a variação das taxas de incidência nos últimos dez anos em território nacional.

O autor revela à Maxillaris que as conclusões apontam para um “aumento significativo na incidência de cancro oral” em ambos os sexos ao longo da última década. Embora seja três a quatro vezes mais frequente nos homens, o maior aumento na incidência deste tipo de cancro foi verificado nas mulheres. Um dos resultados mais importantes deste trabalho refere-se ao aumento signi­ficativo do cancro da orofaringe em ambos os sexos, mas de uma forma mais evidente nos homens. Uma das razões mais apontadas para este facto é a infeção da mucosa orofaríngea pelo Vírus do Papiloma Humano (HPV) que cada vez é mais reportada em todo o mundo. A alteração no padrão de comportamentos sexuais nas últimas décadas poderá facilitar a infeção da mucosa oral por este vírus e estar relacionada com esta tendência de aumento do cancro da orofaringe. “Muito curioso foi verificar que o cancro do lábio diminuiu ao longo da última década, ao contrário do cancro da cavidade oral e da orofaringe”, salienta Luís Monteiro. Este facto poderá estar relacionado com a existência de várias iniciativas já existentes de prevenção e informação do cancro da pele nomeadamente contra um dos seus fatores de risco – a excessiva exposição solar.

Desde os anos 80, países europeus como Inglaterra, Dinamarca e Escócia têm vindo a mostrar um aumento do número de casos de cancro oral. Porém, os dados mais recentes mostram uma redução deste cancro no sexo masculino em países como Espanha, Irlanda, França, Suíça, Itália e Eslovénia. Pelo contrário, no sexo feminino parece haver um aumento da incidência de cancro oral um pouco por toda a Europa. “Curiosamente, no nosso país – como reportado no estudo – o cancro oral tanto está a aumentar no sexo feminino como no masculino”, refere Luís Monteiro.

De resto, segundo as estimativas da Agência Internacional para a Pesquisa do Cancro (IARC na sigla em inglês), em 2008, Portugal terá sido o quarto país com mais casos de cancro oral nos homens em toda a Europa. “Tal situação poderá estar relacionada com o consumo elevado de tabaco e álcool nas últimas décadas e ausência de medidas preventivas verdadeiramente efetivas de combate ao tabagismo e alcoolismo até à última década em análise”.

O cancro oral é uma doença com elevada taxa de mortalidade (acima dos 50 por cento). Porém, quanto mais avançado for o tu­mor pior é o prognóstico. Quando o diagnóstico é realizado numa fase inicial, 85 por cento dos doentes sobrevive, ao contrário dos que são diagnosticados em estado já muito avançado (apenas 15 por cento dos doentes resistem ao fim de cinco anos). “Infeliz­mente, grande par­te dos casos nacionais é detetada tardiamente. Muitos doentes fazem a primeira consulta de oncologia com tumores de grande tamanho e por vezes já com metástases”, constata o autor do estudo, para quem a deteção precoce de cancro oral “torna-se assim uma prioridade”.
Os rastreios de cancro oral realizados pela CESPU permitiram concluir que uma campanha bem organizada, devidamente calibrada e bem coordenada, com a cooperação de vários profissionais de saúde “será bem sucedida em Portugal e sem custos significativos”. Luís Monteiro considera que a formação e motivação dos médicos dentistas “são fundamentais”, defendendo que o pro­cesso deve ser orientado pela OMD com a ajuda de instituições de saúde ou de ensino com qualidade demonstrada nesta área. “Para proceder ao diagnóstico apenas é necessário o olho clínico que todo o médico dentista português do século XXI deve ter”, sustenta.

Relativamente à evolução do tratamento deste tipo de patologia, Luís Monteiro considera que este deverá continuar alicerçado na cirurgia, radioterapia e quimioterapia, mas admite que dois novos conceitos deverão destacar-se: a caracterização da “personalidade tumoral” e o tratamento molecular dirigido a alvos tumorais específicos. “Estes fatores, juntamente com os novos avanços na medicina, incluindo a oncobioterapia molecular, a nanotecnologia, ou a terapia genética, contribuirão para uma maior seletividade tumoral e eficácia das modalidades de tratamento, bem como para a redução dos seus efeitos colaterais, aumentando a sobrevivência dos doentes ou pelo menos tornando o tumor numa doença crónica controlável”.

Apesar das novas perspetivas que se abrem neste campo, o investigador conclui que a principal “arma” no combate ao cancro oral “será a prevenção”.
 

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