Nº54 SETEMBRO/OUTUBRO 2014

Formação nas sociedades científicas: um conceito em constante evolução

  • 16 de Sep, 2014

O papel das sociedades científicas na formação de profissionais do setor dentário assume hoje particular relevância. Consciente disso, a Ordem dos Médicos Dentistas (OMD) decidiu, há algum tempo, apoiar as entidades interessadas nesse projeto, de acordo com as atribuições legais de cada uma das partes. “As sociedades protocoladas com a OMD podem, assim, promover ações científicas, ou outras atividades, cujo objetivo seja fomentar, defender e desenvolver uma área específica da saúde oral, contando com o apoio da OMD, segundo datas, locais e horários definidos por acordo”. Quem o revela é Ricardo Faria e Almeida, diretor do Centro de Formação Contínua da OMD, para quem “as sociedades científicas, pela sua natureza apenas comprometida com o desenvolvimento científico e pelo seu perfil independente, estão muito vocacionadas para a formação e esta oferta é, para nós, crucial. Não poderíamos, por isso, ter melhores parceiros”.

Com efeito, as sociedades científicas converteram-se numa das pe­ças fundamentais da formação contínua em Medicina Dentária em Portugal, que conta atualmente com um considerável número deste tipo de organizações profissionais. É o caso da So­ciedade Portu­guesa de Estomatologia e Medicina Dentária (SPEMD) que, de acordo com o respetivo presidente, Pedro Mesquita, desempenha “um papel extremamente relevante” neste domínio. “Atualmente, os colegas têm ao seu dispor formação contínua através das ‘Noites da SPEMD’, de cursos de formação do tipo hands-on, com um forte cariz prático, de cursos teóricos e, naturalmente, do congresso anual que se realiza no mês de outubro”, adianta Pedro Mesquita, que considera que a ‘marca’ SPEMD, também ao nível da formação, “é sinónimo de elevada qualidade científica e organizativa”.

Esta organização aposta no ensino presencial – ou seja, no contacto direto entre formadores e formandos –, procurando proporcionar formação contínua aos colegas, sócios e não sócios, de elevada qualidade e em condições vantajosas. “Tem sido também nossa preocupação abordar temas transversais a toda a Me­dicina Dentária/Esto­matologia e não apenas os temas da moda”, clarifica o presidente da SPEMD.

Ao longo dos últimos tempos, “temos vindo a verificar que os colegas mostram um interesse e uma apetência cada vez maiores por eventos que incidem sobre temas clínicos do dia a dia e por cursos do tipo hands-on”. Estes últimos são, habitualmente, cursos destinados a um número mais restrito de formandos com uma forte componente prática. Nesse sentido, “a SPEMD tem vindo a fazer uma aposta crescente neste tipo de ações de formação”.

Por seu lado, a OMD tem especiais competências na área da formação contínua dos seus associados. Nesse sentido, anualmente, para além do congresso, realiza inúmeras sessões de formação contínua para os seus membros e pessoal auxiliar, dispersas pelo país e em vários modelos. A título de exemplo, Ricardo Faria e Almeida refere que, este ano, “realizámos cursos modulares teóricos e práticos, cursos exclusivamente teóricos, designados por cursos de fim de dia, as Jornadas da Primavera e cursos de introdução à atividade clínica, entre outros”. A adesão ao conjunto de iniciativas da OMD tem sido, de resto, considerável por parte dos profissionais do setor, tendo no ano de 2013 ultrapassado os 2.400 inscritos. “Creio que é um número bastante apelativo e que denota bem o interesse da classe e a sua aceitação pelo modelo seguido”. Este ano, além de manter a gratuitidade em todos os cursos de fim de dia para médicos dentistas, a OMD iniciou um novo projeto que permitiu disponibilizar online as gravações dos cursos de fim de dia. “Posso dizer que, sendo um projeto que ainda está a dar os primeiros passos, já ultrapassámos as 4.000 visualizações, o que é um número bastante apreciável”, constata o responsável pelo Centro de For­mação Contínua.

Susana Noronha, vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Pe­rio­dontologia e Implantes (SPPI), partilha da opinião que “as sociedades científicas no geral – e a SPPI em particular – têm um papel fundamental na organização de eventos científicos e ações de formação, com diferentes formatos, relacionados com as diferentes áreas da Medicina Dentária”. Na realidade, em conjunto com a OMD, “contribuem para a atualização constante dos clínicos, através das diversas atividades realizadas”, observa Susana Noronha, adiantando que a SPPI “tem tentado realizar, nos últimos anos, uma reunião anual com a presença de conferencistas de referência nas áreas da periodontologia e da implantologia. Adicional­mente, tem realizado reuniões – SPPI Jovem – com o objetivo de estimular os estudantes e os médicos dentistas recém licenciados. Também tem organizado cursos de fim de dia em diferentes cidades”.

Américo Ferraz, presidente da Sociedade Portuguesa de Orto­pedia Dento-facial (SPODF), defende, por seu turno, que a formação “deve ser idónea, atual e com a menor influência possível dos objetivos puramente comerciais e, deste ponto de vista, as sociedades cientificas têm – e continuarão a ter – um papel muito revelante e com tendência crescente”. A reunião científica anual da SPODF “continuará a ser um momento de excelência na área da formação, mas também temos tido alguns cursos, durante o ano, sobre temas atuais, alguns deles dedicados a temáticas diferentes do habitual, nomeadamente sobre gestão e comunicação”, esclarece Américo Ferraz.

Instado a pronunciar-se sobre os principais desafios com vista à melhoria da formação em Portugal na área da Medicina Dentária, o presidente da SPODF aponta para a necessidade de se tentar “evitar a concorrência desleal com a verdadeira formação”. Na sua opinião, com a redução do curso de Medicina Dentária para cinco anos, “a formação pós-graduada ganhou uma importância acrescida”, motivo pelo qual a elaboração de um estágio bem estruturado e de preferência remunerado “já deveria ter sido implementado”.

Já a vice-presidente da SPPI sustenta que um dos grandes desafios passa por “criar condições para que a formação científica seja continuada e a atualização nas diferentes áreas passe a ser obrigatória”.

Numa época em que a formação não termina com a conclusão do Mestrado Integrado, o presidente da SPEMD recomenda como prioridade a criação de regras que permitam classificar e credibilizar a formação disponibilizada, nomeadamente no que diz respeito à qualidade e às habilitações dos formadores. “Parece-me, assim, que o principal desafio é mesmo a regulação/certificação dos eventos para combater a realidade atual que consiste numa oferta excessiva de formação, alguma de qualidade duvidosa e, muitas vezes, com pouca ou nenhuma informação a sustentá-la”. Pedro Mesquita considera, igual­mente, aconselhável que “comece a haver algum cuidado na calendarização das ações de formação, pois assiste-se, hoje em dia, a um elevado número de cursos e eventos, muitas vezes, sobrepostos”.

A SPEMD possui, aliás, os meios necessários para calendarizar os eventos, disponibilizando este serviço de forma gratuita. Todos os interessados poderão solicitar a publicação da sua ação formativa através da internet. “Desta forma, será possível, tanto aos formadores como aos colegas a quem se destina a formação, conhecer de uma forma simples e ordenada, os eventos nacionais agendados”.

Para Ricardo Faria e Almeida, em primeiro lugar, interessa distinguir entre a formação realizada a nível das instituições de ensino superior, normalmente formações mais extensas que cumprem regras internas, e aquela que é realizada pelas sociedades científicas. “Em todas elas, creio que o grande desafio está na necessidade de uma avaliação independente da qualidade das formações praticadas, permitindo, por um lado, melhorar a qualidade e, por outro, ajudar os profissionais a fazerem uma melhor escolha segundo os seus reais objetivos”.

O diretor do Centro de Formação Contínua assegura, a propósito, que a Ordem “está atenta e na altura própria tomará uma posição pública a respeito desta matéria”.

No que concerne à regulação/certificação das ações formativas, Su­sana No­ronha realça que “é importante regular a formação contínua e criar um sistema de créditos, ou outro método alternativo, para motivar os médicos dentistas a participarem em even­tos científicos, de forma a que a aquisição de conhecimentos e reciclagem seja obrigatória e permanente”.

Pedro Mesquita destaca, igualmente, a importância de se avançar nes­te domínio, “pois só assim será possível credibilizar a formação e garantir, ou mesmo aumentar, a sua qualidade e defender os inte­resses de quem procura manter-se atualizado”. Na perspetiva do presidente da SPEMD, essa regulação/certificação “deverá ser realizada por entidades independentes que possam, de uma forma credível e idónea, avaliar a qualidade técnica e científica da vasta oferta formativa que está ao dispor dos colegas”.

Américo Ferraz não só considera o processo necessário, como afirma que o mesmo “é urgente, uma vez que assistimos a uma preponderância da formação de origem comercial em detrimento da científica”. O dirigente da SPODF recorda que as comissões científicas das sociedades científicas e das universidades “têm sido as reguladoras tradicionais e competentes”.

Ricardo Faria e Almeida ressalva, por sua vez, que a formação contínua “não se atribui por decreto; quan­do muito, estimula-se em pontos muito específicos”. É o que a OMD tem vindo a fazer, já que conta, entre as demais atribuições estatutárias conferidas por Lei, com a capacidade para zelar, defender e promover a Medicina Dentária, os seus profissionais e a saúde oral numa perspetiva global. “A OMD tem especiais competências na área da formação contínua, pugnando pela constante atualização dos médicos dentistas em prol da me­lhoria dos cuidados de saúde das popula­ções”. No entanto, “não vamos entrar numa febre reguladora que se torne asfixiante”, recomenda o representante da OMD, que entende que a Ordem e outros intervenientes – como as próprias sociedades científicas, as universidades e outros – “têm vindo a fazer a pedagogia da necessidade da formação contínua. A evolução tecnológica e científica da profissão é uma realidade e obriga, por isso, a uma constante atualização de conhecimentos e procedimentos”. Su­bli­nha, a propósito, que os médicos dentistas “são uma classe consciente dessa necessidade e, portanto, procuram continuamente essa atualização”.

Ricardo Faria e Almeida deixa antever, porém, que se surgir a ne­cessidade de monitorizar e intervir no mercado pela via da regulação ou da certificação, “a OMD saberá encontrar os parceiros ideais para a apoiarem, e as sociedades são sempre uma referência”.

Resta saber qual é o presente grau de compromisso e dedicação dos profissionais da classe face à formação contínua. “Parece-me que a este nível ainda há algum caminho a trilhar”, observa Pedro Mes­quita, cuja experiência pessoal indica que “apenas uma pequena par­te dos colegas, e constituída maioritariamente pelos mais jovens, se apresenta sensível à necessidade de realizar formação contínua”. Da­do o elevado número de profissionais de saúde oral ins­critos nas Ordens dos Médicos Dentistas e dos Médicos, “seria de esperar que a procura fosse significativamente maior”. A este nível, o presidente da SPEMD julga ser importante “avançar-se para a formação contínua obri­gatória de modo a garantir que todos os colegas façam a atualização de conhecimentos e de conceitos, numa época em que a evolução dos materiais e das técnicas é muito rápida”.

Neste contexto, Susana Noronha diz que seria vantajoso “criar as con­dições de estímulo e motivação para que todos os médicos dentistas percebessem e aceitassem a importância da formação científica contínua”, ao passo que Américo Ferraz repara, com base na experiência da SPODF, que, por vezes, “há alguma dificuldade por parte dos colegas na adesão. Já aconteceu termos de cancelar cursos por não haver o número mínimo de participantes”.

Em contrapartida, Ricardo Faria e Almeida revela que, em quatro anos, a OMD triplicou o número de colegas que aderiram às ses­sões de formação contínua que organiza em diferentes locais do país. “É um sinal claro que existe interesse e compromisso”. Nos últimos anos, as sessões de formação contínua têm sido, de resto, realizadas exclusivamente por profissionais portugueses, “o que atesta bem a grande qualidade da Medi­cina Den­tária nacional”.
Confrontado com a crescente implantação dos cursos eletrónicos ou virtuais, Ricardo Faria e Almeida vê como principal vantagem “o facto de todos, independentemente do local onde se realiza o curso, o dia ou a hora, poderem visualizar as sessões de formação. É, sem dúvida, um primeiro passo para algo que pretendemos mais ambicioso. Aceitamos que temos ainda um longo caminho a percorrer, mas estamos motivados para o fazer”.

Sobre a mesma questão, Américo Ferraz comenta que em Portugal “ainda não há dados para saber qual é a relevância dos cursos eletrónicos, mas nos Estados Unidos é já uma prática comum”. O presidente da SPODF reconhece que o grande benefício deste formato “é o acesso a informação de praticamente qualquer parte do mundo, na nossa própria casa e provavelmente com um custo menor”, sem deixar de salientar, porém, um aspeto negativo: “O desaparecimento do convívio social, que é muito importante para qualquer profissão”.

A SPEMD ainda não tem experiência neste tipo de cursos e, por enquanto, “não faz parte dos seus planos vir a implementá-los”, esclarece Pedro Mesquita, que admite, contudo, “ser vantajoso o facto de poderem chegar a mais colegas, e mais longe, e permitirem ao formando uma melhor gestão da sua agenda com custos menores, pois não exigem deslocações”. Na sua opinião, a grande desvantagem deste formato “é a impossibilidade de recriar a atmosfera das formações numa sala com vários formandos e formadores, pelo que é menor – e menos imediato – o dinamismo e a interatividade que se quer nas ações de formação”. Ainda assim ressalva “a ausência de dados que me permitam saber se este aspeto se traduz, por exemplo, num menor aproveitamento ou rendimento”.

Susana Noronha lembra que a Medicina Dentária “é uma atividade prática por excelência, baseada num elevado conhecimento teórico”. Nesta medida, “tenho alguma dificuldade em apostar nos cursos eletrónicos ou virtuais, sem acompanhamento prático direto”, admite a vice-presidente da SPPI.

Face à débil conjuntura económica que o país atravessa, a redistribuição da “carga” entre os agentes implicados na formação contínua (os sócios e a indústria em particular) tem vindo a assumir um papel preponderante. “A parceria com a indústria é importante não só em matéria de ajuda na divulgação dos diferentes eventos que a SPPI realiza entre os médicos dentistas como também no apoio aos convites que endereçamos a alguns conferencistas de renome internacional”, confirma Susana Noronha.

Esta opinião é partilhada por Pedro Mesquita, que também realça o papel das empresas no apoio à realização de ações de formação, “quer promovendo a vinda de oradores de renome quer apoiando monetariamente ou através do fornecimento de material. Só desta forma, e com estes apoios cada vez mais seletivos, é possível continuar a realizar formação a preços acessíveis”.

Américo Ferraz reconhece o desempenho relevante da indústria no financiamento da formação, mas alerta que “a contribuição dos sócios é também fundamental”. Segundo o presidente da SPODF, “os co­legas têm de ter consciência que se desejam ter uma formação com qualidade, independente e atual, deverão estar disponíveis para a pagar a bom preço. Este ponto, por vezes, é esquecido”.

Ao nível do financiamento, Ricardo Faria e Almeida afirma que, “graças ao trabalho de todos, colegas e indústria, a formação con­tínua disponibilizada pela OMD é autossustentável”. Ao contrário do que seria de esperar, não se têm verificado dificuldades, “já que temos contado com o apoio de inúmeras empresas que nos têm ajudado a atingir os objetivos propostos”, conclui.

Os quatro interlocutores da Maxillaris aproveitam a ocasião para agradecerem a estes parceiros o seu apoio e esforço em prol da formação contínua no setor dentário.
 

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