Nº67 MARÇO 2016

A promoção da saúde oral dos idosos institucionalizados tem sido muito limitada

  • 07 de Mar, 2016

Sempre me interessei por disciplinas como sociologia, psicologia e filosofia. De facto, durante o liceu pensei mesmo em seguir “Humanidades”; estou contente por não o ter feito. O trabalho na clínica dentária dá-me uma chance de “espreitar” todas estas disciplinas e a área social oferece-me mais que uma ampla oportunidade de trabalhar com todas elas no contexto odontológico e não só.

Foi após o término da minha licenciatura, e a entrada no mercado de trabalho – atendendo maioritariamente pessoas idosas institucionalizadas – que percebi que havia algo que impedia estes pa­cientes de melhorarem a sua saúde oral, algo que eu, enquanto médica dentista, não conseguia controlar. A saúde oral e o tratamento odontológico não eram vistos como grandes preocupações para os meus pacientes e para os seus cuidadores. Eu somente “servia” para quando eles tinham dor, não me solicitavam para exames semestrais, ou mesmo anuais, nem para conselhos sobre a higiene oral.

No final de 2013, tive conhecimento que a organização não-governamental Mundo a Sorrir iria alargar o projeto “Sorrisos de porta em porta”, que promove a saúde oral dos idosos institucionalizados e sensibiliza os seus cuidadores sobre a importância da higiene oral. No início de 2014, tive a oportunidade de abraçar este projeto, dando início a uma das mais gratificantes experiências não só enquanto profissional, mas também como ser humano. Neste sentido, pretendo documentar como foi esta experiência tão enriquecedora, e espero que os leitores, ao chegarem ao final deste artigo, concordem com a necessidade da promoção da saúde oral dos idosos institucionalizados fazer parte da agenda política nacional.

Tipicamente “cuidamos” dos nossos dentes de um mo­do independente, refletindo as nossas necessidades individuais em termos de saúde oral, de preferências e de padrões de comportamento. Alguns procuram ocasionalmente uma intervenção profissional na forma de uma visita anual ou bianual ao médico dentista ou higienista oral. Portanto, os componentes dos cuidados de saúde oral podem ser percebidos como uma série de tarefas ou intervenções relativamente simples.

No entanto, quando existe um défice adquirido na capacidade cognitiva ou na habilidade física do indíviduo, como é o caso do idoso frágil, este indivíduo pode tornar-se parcialmente ou totalmente dependente de outros para garantir a sua higiene oral.

O grande problema surge com a falta de informação e do suporte necessários para os cuidados com a higiene oral, sentido por parte destes cuidadores (formais e informais).

Durante anos a higiene oral foi vista como uma atividade ligada aos “cuidados com a aparência”, não mais importante do que escovar o cabelo ou fazer a barba. Hoje, sabemos que a higiene oral é uma parte essencial do controlo da infeção.

Em Portugal, a promoção da saúde oral dos idosos institucionalizados tem sido muito limitada, com vários mitos que contribuem para esta situação.

Embora com algum receio estereotipado por parte dos idosos, dos cuidadores e da própria instituição, o “Sorrisos de porta em porta” foi acolhido pela maioria das instituições. Ao longo do primeiro ano, visitámos várias (de cariz religioso, privado e público) com diferentes valências (lares, centro de dia, centro de convívio e serviço de apoio domiciliário).

Para mim, uma parte relevante deste projeto deu-se no serviço de apoio domiciliário. Como a designação do projeto indica, fomos de porta em porta à casa dos utentes. De facto, in loco a situação torna-se mais real e percebemos de imediato a falta de informação sobre a higiene oral.

Deparámo-nos com situações inimagináveis, que dão sentido e mostram a importância do projeto. Das várias visitas domiciliárias realizadas, encontrámos idosos que referiram que não efetuavam a higiene oral diária porque ninguém os tinha informado da necessidade de escovar os dentes ou as próteses dentárias (ocasionalmente passavam a prótese dentária por água) e por esse motivo não tinham nem escovas nem pastas dentífricas. Outros tinham material para a higiene oral, porém, sem condições de utilização (escovas com bolor, com cerdas gastas, pastas dentífricas com bolor). Por outro lado, alguns dos idosos que possuíam escovas ou pastas dentífricas eram incapazes ou tinham dificuldade em manter um nível adequado de higiene oral, nomeadamente devido a perda da força de preensão manual e fraqueza muscular.

Todas estas situações confluíram nos vários problemas orais obervados nestes utentes, que se repercutiam na sua saúde geral, no seu bem-estar e na sua qualidade de vida, que por sua vez pioravam a sua saúde oral.

Em cada “porta” deixámos escovas, pastas dentífricas e/ou material para higienização das próteses dentárias, e trouxemos queixas relativamente às barreiras no acesso aos cuidados de saúde orais: a dependência funcional e os custos, entre outras.

Ensinou-se aos utentes, bem como aos cuidadores, como realizar uma correta higiene e a importância da mesma no controlo da infeção. Al­guns idosos efetuaram pela primeira vez a escovagem dos dentes, e expressões como “não merece a pena” foram rapidamente substituídas por comentários como “sinto-me muito melhor agora”.

Embora haja inúmeros fatores que tornam a prestação dos cuidados dentários mais difícil para estes indivíduos, uma resposta crescente dos profissionais para desenvolver iniciativas para a divulgação e o acesso está a começar a ter efeito.

O desafio para a prestação dos cuidados de saúde oral aos idosos frágeis institucionalizados ainda persiste, e exigirá um esforço tremendo dos profissionais de saúde oral, de saúde (médicos, enfermeiros e auxiliares) e dos decisores políticos antes da mudança significativa ser evidente.
 

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