Augusta Marques, diretora clínica do Centro de Apoio à Saúde Oral (Projeto CASO) da organização não governamental Mundo a Sorrir

"Fazemos o acompanhamento das pessoas em dificuldade física, psicológica e social, com o máximo de respeito e dignidade"

  • 05 de Sep, 2016

Segundo a definição das Nações Unidas, "o voluntário é o jovem ou o adulto que, devido a seu interesse pessoal e ao seu espírito cívico, dedica parte do seu tempo, sem remuneração alguma, a diversas formas de atividades, organizadas ou não, de bem-estar social, ou outros campos...".

De facto, ser voluntário exige compromisso, dedicação, ética. Esta ação supõe dar/apoiar o ser humano em dificuldades através da assistência presencial, com afetos que estimulam uma relação, mas sobretudo pela competência no que se dá.

Há cinco anos que exerço a missão de voluntária na organização não governamental Mundo a Sorrir. Iniciei o meu voluntariado, participando num projeto de sensibilização para o cancro oral. Depois, participei no projeto “Sorriso especial”, cujo público-alvo foram crianças e jovens portadores de Síndrome de Down. Findo este projeto, surgiu o voluntariado no Centro de Apoio à Saúde Oral (Projeto CASO).

O nosso trabalho, na clínica, é um conjunto de cuidados prestados aos utentes sinalizados pelos nossos parceiros, que passa muito além do diagnóstico e do tratamento terapêutico. Ou seja, avaliamos a pessoa no seu todo de forma a promovê-la, proporcionar-lhe bem-estar e até mesmo contribuir para a sua auto-estima e felicidade. Fazemos o acompa­nhamento das pessoas em dificuldade física, psicológica e social, com o máximo de respeito e dignidade.

No Projeto CASO - PORTO a prestação de cuidados de saúde oral abrange todas as faixas etárias. Contudo, chegam-nos cada vez mais solicitações dos parceiros para apoio a adultos e seniores. É compreensível essa necessidade, dado que estamos perante uma população mais envelhecida, que necessita de mais cuidados de saúde gerais e sociais, devido à conjuntura económica que atravessamos. Parte desta população chega até nós parcial mas maioritariamente desdentada, e é emergente a nossa atuação no campo da reabilitação para restituir a função mastigatória perdida, por al­guns, há muitos anos. Assim como presenciamos, diariamente, cavidades orais com focos infeciosos, problemas periodontais, parcos ou nenhuns cuidados de higiene oral. Muitas vezes, estas situa­ções evoluem para este estado por desconhecimento e falta de informação sobre a necessidade de cuidados diários à cavidade oral, outras vezes por falta de escova e pasta dentífrica.

No nosso projeto ainda aparecem imensas pessoas que não têm uma escova e dentífrico para realizar esta atividade de higiene básica. Para que os nossos utentes a possam realizar, na primeira consulta é-lhes fornecida uma escova e dentífrico, assim como se efetua o ensino e a motivação para a higiene oral. Alertamos sempre para a importância desta prática e o controlo da infeção. A correta higienização da cavidade oral mo­nitoriza-se em consultas subsequentes.

Como qualquer outra clínica, o Projeto CASO tem de ser gerido e organizado. Acresce-me a função de direção clínica, em que, voluntariamente, asseguro a eficiência dos cuidados de saúde prestados e procedo à sua avaliação sistemática, zelando por uma me­lhoria contínua da qualidade dos cuidados de saúde oral (através da realização de auditorias clínicas); garanto a organização e a constante atualização dos processos clínicos, com a ajuda da socióloga Ana Simões e da assistente dentária Patrícia Silva, designadamente através da revisão das decisões de admissão, exclusão e de alta; realizo reuniões com os nossos parceiros, ocorrendo sempre uma anualmente; faço a gestão e a aquisição de material dentário (consumível ou não) com a ajuda da assistente. A aquisição de material passa por uma primeira abordagem aos nossos mecenas das empresas de materiais, com a finalidade de obtermos donativos. Também realizo o processo de seleção dos voluntários, com a apreciação do curriculum vitae e a realização de uma entrevista.

É inimaginável, para algumas pessoas, as situações com que diariamente nos deparamos. Uma realidade que nos entristece muito, “mexe” connosco como ser humano. Questionamo-nos, diariamente, como grande parte da população portuguesa mastiga os alimentos, as repercussões que tem no sistema estomatognático. O nosso esforço constante é proporcionar uma cavidade oral sã, uma qualidade de mastigação e restituir a perda das peças dentárias. Neste esforço diário está uma equipa de 30 médicos dentistas voluntários e um grupo de laboratórios de prótese que nos permite cumprir estes objetivos. Desde já o meu obrigado a todos!

Com uma média de 1.500 consultas por ano, desde o início do projeto já foram realizados mais de 22.300 tratamentos dentários e já possibilitámos uma reabilitação oral com prótese removível (acrílica e/ou esquelética) a mais de 138 utentes.

É imensamente gratificante quando os nossos utentes deixam de colocar a sua mão à frente do rosto, nomeadamente da boca, com vergonha de sorrir, e sorriem com um brilho nos olhos de emoção e sobretudo de felicidade.

No final das consultas, dizem-nos: “muito obrigada”, “isto é um milagre”, “eu não mereço tanto”, ou simplesmente choram de felicidade, abraçam- -nos calorosamente, pedem-nos se podem “dar um beijo de muito obrigada, por tudo o que fizemos”. Pois têm agora condições para poder voltar a acreditar que vale a pena sorrir. Contribuímos para uma melhor qualidade de vida e para o aumento da auto-estima. É um dever ajudar, quanto mais não seja simplesmente ouvir o outro.
 

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