RELATO DE PATRÍCIA GOUVEIA, Coordenadora do projeto “Aprender a ser saudável” da organização não governamental Mundo a Sorrir

É surpreendente a quantidade de crianças que frequentam o primeiro ano de escolaridade e que nunca tiveram contacto com uma escova de dentes

  • 06 de Feb, 2017

A Maxillaris retoma nesta edição a divulgação de testemunhos dos profissionais do setor dentário que se dedicam ao voluntariado, com o objetivo de documentar experiências enriquecedoras no âmbito das diversas iniciativas solidárias da organização Mundo a Sorrir. A higienista oral Patrícia Gouveia, natural de Lisboa, que desde há três anos coordena o projeto “Aprender a ser saudável” – iniciado pela Mundo a Sorrir em 2010 –, partilha com os nossos leitores os contornos desta missão voluntária, que abrange largos milhares de crianças do primeiro ciclo do ensino básico e dezenas de estabelecimentos escolares de todo o país, e que conta com o contributo de cerca de 25 médicos dentistas e 10 higienistas orais.

 

Desde tenra idade que faço voluntariado de forma pontual. Participei em atividades de voluntariado de diversas entidades e associações, relacionadas ou não com a saúde oral. Por esta razão, não hesitei quando, logo após o término da licenciatura em higiene oral, surgiu a oportunidade de colaborar com a Mundo a Sorrir.

Desde que colaboro com esta organização não governamental já participei em diversos projetos – “Um futuro sem cancro oral”, “Dr. Risadas” e “Aprender a ser saudável” – envolvendo estes maioritariamente a população infantil. A participação nestes projetos tornou evidente o facto de, em Portugal, ainda existir uma grande fatia da população que não possui hábitos nem conhecimentos suficientes ao nível da higiene oral, o que se reflete principalmente ao nível das camadas mais jovens e desfavorecidas da população. É surpreendente a quantidade de crianças que frequentam o primeiro ano de escolaridade e que nunca tiveram contacto com uma escova ou pasta de dentes, facto este que, na minha opinião, é suficiente para justificar a pertinência de projetos como “Aprender a ser saudável”.

O projeto surgiu em 2010, em parceria com a Câmara Municipal de Cascais, sendo implementado apenas numa escola: a Escola Básica Nº 4 da Parede. O projeto tem como principal objetivo melhorar a higiene oral das crianças do primeiro ciclo de escolaridade, sendo para tal desenvolvidas diversas atividades, tais como a implementação da escovagem dentária diária, ações de sensibilização aos encarregados de educação, professores e crianças, escovagem acompanhada e medições da quantidade de placa bacteriana presente na cavidade oral. De entre estas atividades, vale a pena destacar a que torna este projeto único: a escovagem dentária diária no contexto escolar. Ao contrário da maior parte dos projetos deste tipo, aqui a escovagem dentária efetua-se em contexto de sala de aula, com supervisão do professor, não estando as escovas dentárias acessíveis a todas as crianças da escola. De forma a diminuir a probabilidade de contaminação bac­­teriana, todas as escovas mantêm-se num suporte, identificadas com o nome da criança no cabo e na tampa da mesma.
Neste suporte, cada criança tem um lugar atri­buí­do para colocação da escova. A pasta dentífrica encontra-se num boião comum a toda a turma, sendo que a colocação da mesma é su­per­vi­sionada pelo professor, não podendo existir contacto entre as cerdas da escova de cada criança e o doseador da pasta dentífrica. Todo este processo adapta-se à logística de cada escola/turma.

Os resultados falam por si. De forma a avaliar a eficácia deste projeto, cerca de 50% das crianças participantes em cada ano submetem-se à avaliação da quantidade de placa bacteriana presente na cavidade oral através da aplicação de um corante de eritrosina, sendo o registo efetuado se­gundo o índice DI-S.

Esta avaliação efetua-se no início do ano letivo, antes da implementação do projeto, e novamente no final do ano escolar, de forma a avaliar se existiu redução, ou não, da quantidade de placa bacteriana nas crianças avaliadas. Em média, em dois anos, 88% das crianças avaliadas reduzem a quantidade de placa bacteriana. Esta redução até poderia não ser muito significativa, mas é. Com efeito, não só se verifica uma diminuição da quantidade de placa bacteriana presente na cavidade oral desta crianças, como também esta redução atinge os 52% comparativamente à primeira observação.

Os ótimos resultados obtidos ao longo dos anos de implementação do projeto permitiram abranger, até à data, 12.191 crianças, em 85 escolas de norte a sul do país. No ano letivo de 2015/2016 encontravam-se a participar no projeto seis mu­nicípios do país: Cascais, Cinfães, Paços de Ferreira, Porto, Penafiel e Sertã.

A coordenação deste projeto, tarefa pela qual sou responsável, passa não só por garantir a logística das atividades a desenvolver, mas também pela constante procura de financiamento e de reuniões com parceiros, de forma a garantir a sustentabilidade do mesmo. Este trabalho engloba não só estas atividades, mas também a coordenação de uma equipa (que não poderia ser melhor) e o contacto com voluntários.

Faço-o com imenso prazer, pois não há nada que seja mais motivante, em qualquer traba­lho – seja voluntário ou não –, do que sentirmos que estamos a trazer algo de bom à vida de outra pessoa. É isso que sinto ao participar neste projeto: sinto que estou a contribuir para melhorar a qualidade de vida destas crianças. Muitas vezes, acho que nem elas, nem os próprios pais com­preendem o quanto. Com este projeto, estamos a prevenir extrações precoces de dentes permanentes, que se verificam frequentemente a partir dos sete anos. Graças a esta missão, e às dezenas de voluntários que nela participam, há milhares de crianças que vão poder sorrir sem vergonha.
 

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