Nº87 MARÇO 2018

Estudo indica que médicos dentistas formados há menos de dez anos enfrentam nova realidade profissional

  • O início de carreira é marcado por uma remuneração baixa quer para os profissionais que trabalham muitas horas quer para os que trabalham menos.
  • 07 de Mar, 2018

O estudo “Diagnóstico à Empregabilidade 2017”, elaborado pela consultora QSP a pedido da Ordem dos Médicos Dentistas (OMD), mostra uma divisão geracional no exercício da Medicina Dentária. Os médicos dentistas que se formaram há menos de dez anos enfrentam dificuldades crescentes para se integrarem no mercado de trabalho.

A primeira clivagem geracional aparece após a conclusão dos estudos. A entrada no mercado de trabalho, depois da conclusão da faculdade, demorou menos de seis meses para 78% dos médicos dentistas. Só que os que se formaram há mais de dez anos conseguiram, em média, uma inserção muito mais rápida, com 59% a exercerem a atividade em menos de um mês.

63% dos médicos dentistas que exercem em Portugal trabalham em um ou dois consultórios, no entanto, mais de metade dos médicos dentistas que se formaram há mais de três anos – e menos de 10 – trabalham em mais do que quatro consultórios, e dos que têm mais de 51 anos, 60% exercem apenas num consultório.

Outra diferença é que os que se formaram há mais de 10 anos são os que mais exercem atividade por conta própria (69%), e os que trabalham há menos de 10 anos fazem-no por conta de outrem (77%).

A remuneração dos médicos dentistas varia consoante o número e o custo dos procedimentos. 66% têm uma remuneração variável e apenas 24% dos que exercem na vertente clínica aufere uma remuneração fixa. O início de carreira é marcado por uma remuneração baixa quer para os que trabalham muitas horas quer para os que trabalham menos.

Em relação ao consultório onde exercem mais horas, 52% dos inquiridos fazem-no por conta de outrem e 44% exercem por conta própria.

Para o bastonário da OMD, Orlando Monteiro da Silva “para além da figura do empregado ou do desempregado, é essencial legislar no sentido da criação do conceito de subemprego. A profissão liberal encontra-se desprotegida pelas leis do trabalho, nomeadamente em termos de categoria profissional, empregabilidade, maternidade, proteção na doença, acidentes de trabalho, incapacidade profissional e reforma. O facto de a maioria (63%) dos médicos dentistas, principalmente os mais jovens, se encontrarem a exercer em diferentes clínicas e consultórios é disso prova”.

Apelo ao governo

Dos inquiridos, 70% considera muito importante a criação de uma tabela de valores de referência para a prestação de serviços. Legalmente, a OMD não o pode fazer, por isso, o bastonário deixa um apelo ao governo: “Existe a necessidade de legislar no sentido da implementação de uma tabela de valores de referência (preços) dos atos de medicina dentária, assegurando parâmetros de qualidade, transparência de informação e defesa da saúde pública. Há exemplos de regulação tarifária para profissões liberais existente em vários países, com provas dadas na proteção dos consumidores. Este estudo mostra que uma percentagem muito elevada de médicos dentistas concorda com esta opção”.

39% dos inquiridos apontou a aptidão ou a vocação como a principal razão para optar pela Medicina Dentária, enquanto 26% escolheu a segunda razão mais referida: “melhorar a saúde das pessoas”.

Outra vantagem para os médicos dentistas com mais anos de prática é que habitam mais perto do local de trabalho (menos de cinco kms) e gerem melhor o tempo para o atendimento dos pacientes.

Orlando Monteiro da Silva deixa uma recomendação: “Os candidatos ao mestrado integrado de medicina dentária devem informar-se sobre as condições de empregabilidade da profissão no contexto nacional, sobre a elevada taxa de emigração e outras condições gerais da profissão, nomeadamente em termos salariais nos primeiros anos de exercício. As recomendações internacionais apontam para Portugal um rácio de um médico dentista por 1.500 a 2.000 habitantes. Neste sentido, o acesso à formação graduada deveria ser adaptado às necessidades de procura do nosso país”.

Em média, os médicos dentistas que responderam ao inquérito atendem por semana 44 utentes, mais quatro que na edição anterior, e os doentes esperam nove dias por uma consulta. O atendimento ocupa metade das horas do dia dos profissionais.

Os médicos dentistas consideram que o número de utentes tem vindo a crescer. 44% dos médicos dentistas confirma um aumento de consultas no ano passado, ainda assim menos 3 pontos percentuais que em 2016. Em relação à edição anterior, há menos médicos dentistas a mencionar uma quebra no número de utentes.

A confirmar esta tendência, 42% revela que recrutou médicos-dentistas nos últimos 12 meses.

65% dos médicos dentistas referem que os preços se mantiveram nos últimos dois anos nas clínicas e consultórios, e muitas das funções complementares ao tratamento dentário, no âmbito da consulta, não se cobram.

Quanto às modalidades de pagamento, entre 50 a 60% dos utentes pagam integralmente no ato da consulta ou aplicação do tratamento.

Dos mais de dez mil médicos dentistas inscritos na OMD, foram registados pela consultora QSP 2.060 inquéritos válidos e, face à amostra, o estudo, que visa expor os principais indicadores do exercício da medicina dentária em Portugal, tem relevância estatística com um erro de precisão de 2,16%, para um nível de confiança de 95%.

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