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"A complexidade dos mecanismos envolvidos na dor orofacial e disfunção temporomandibular requerem uma abordagem multidisciplinar"

  • David Sanz López, presidente da Sociedade Portuguesa de Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial
  • 14 de Abr, 2015

David Sanz López, presidente da Sociedade Portuguesa de Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial

Quais são os objetivos da Sociedade Portuguesa de Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial (SPDOF)?
Esta sociedade científica tem como finalidade promover o desenvolvimento do estudo e intervenção na disfunção temporomandibular (DTM) e dor orofacial (DOF) ao serviço da saúde da população portuguesa, o que deverá concretizar-se através de vários objetivos, entre os quais o estímulo ao estudo e à investigação de problemas científicos relacionados com estas temáticas, o estudo dos aspetos sociais da DTM e DOF e apoiar a sua prevenção, assistência e apoio aos pacientes, bem como a promoção de uma abordagem multidisciplinar e do estreitamento de relações científicas entre os profissionais de saúde portugueses que se dedicam particularmente a este setor da saúde.
A SPDOF também está empenhada na cooperação e organização de atividades dirigidas a profissionais de saúde e à população em geral no campo da DTM e DOF, no patrocínio da presença de profissionais de saúde portugueses em reuniões nacionais e internacionais, e na cooperação com as associações portuguesas e estrangeiras criadas com idên­ticos objetivos.

Na sua opinião, que particularidades marcam a diferença entre a nova sociedade científica e outros organismos já existentes no setor dentário?
Em 2014 assinalou-se o ano global contra a dor orofacial da Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP, na sigla em inglês). Nesse sentido, a IASP contactou e motivou os seus associados no sentido de disseminarem informação nesta área específica nos mais diferentes canais, promoverem ações educativas e procurarem aumentar o conhecimento dos profissionais e de outros in­vestigadores científicos, dos media, do público em geral e dos decisores públicos e políticos.
Este foi também um fator motivador de um conjunto de colegas para a criação da SPDOF, que se concretizou no final do ano passado.
Não existia, até à data, uma sociedade científica verdadeiramente ativa e dedicada exclusivamente a estas temáticas; muito menos uma sociedade tão transversal quanto a nossa pretende ser.
O diagnóstico e tratamento da dor orofacial são complicados devido à densidade de estruturas anatómicas da zona, aos mecanismos da dor e ao importante significado psicológico atribuído à face e à cavidade oral. A complexidade da anatomia da cabeça, do pescoço e os mecanismos psicológicos implicados na dor requerem uma aproximação multidisciplinar.
Sob o desígnio da multidisciplinariedade que de­ve orientar o tratamento destes pacientes, pretende-se obviamente obter um contributo alargado e inclusivo de todos os colegas das mais diversas especialidades. É um projeto que abrange especialidades médicas hospitalares – cirurgia maxilofacial, neurologia, anestesiologia, es­to­­­ma­tologia, fisiatria, entre outras –, medicina den­tária, fisioterapia, psicologia e outros profissionais de saúde que exerçam a sua atividade na saúde pública e/ou privada, e na docência ou investigação.

Quais são as principais preocupações dos profissionais que se dedicam a esta área específica da saúde?
A DTM é a causa mais frequente de dor não dentária na região orofacial e para tratá-la é necessário compreender a sua etiologia e estabelecer um processo sistemático para o diagnóstico diferencial. Os estudos internacionais dizem-nos que a DTM apresenta uma incidência de cerca de nove a 13 por cento da população em geral (com um rácio mulher-homem de 2:1), mas apenas cerca de quatro a sete por cento procuram tratamento. Os sinais e os sintomas apresentam um pico en­tre os 20 e os 30 anos. Apesar destes dados serem obtidos a partir de amostras populacionais de outros países, e de não existirem muitos estudos na população portuguesa, acredito que por não existirem ra­zões epidemiológicas objetivas que nos di­fe­renciem, e também pela realidade com que contacto todos os dias na clínica, os números portugueses não serão diferentes.
A comunidade médica está moderadamente informada sobre este tipo de patologias. No entanto, devido a algum desconhecimento ou imprecisões de diagnóstico, os pa­cientes são erradamente encaminhados para outras especialidades, conduzindo a gastos desnecessários e ao agravamento cronológico das patologias.
Vale a pena ressalvar que a complexidade dos mecanismos envolvidos na dor orofacial e na DTM e a influência de fatores psicológicos requerem, frequentemente, uma abordagem por uma equipa multidisciplinar. Com a combinação dos diversos tratamentos de que dispomos obtêm-se resultados favoráveis na maioria dos casos (em 85 por cento dos casos de dor e disfunção, segundo Cross e os seus colaboradores num estudo de 15 anos de seguimento).
Estes temas começam cada vez mais a ter um espaço próprio e consistente na maioria dos congressos generalistas de Medicina Dentária, e a invadir outros congressos de áreas médicas, por exemplo, de cirurgia maxilofacial, de estomatologia, de neurologia e de otorrinolaringologia.

Qual é a sua expetativa relativamente ao Primeiro Congresso de Dis­função Tem­poromandibular e Dor Orofacial que vai ter lugar em maio, em Coim­bra?
As expetativas da organização e o feedback inicial que temos tido são os melhores. O auditório do congresso tem uma lotação máxima de 500 pessoas e esperamos atingir esse número, tendo em vista o grande interesse que despertam os temas a tratar, a elevada incidência e prevalência deste tipo de patologias, e a sua transversalidade a diferentes áreas médicas.
Pretendemos, de resto, dar continuidade anual ao congresso e colaborar com eventos internacionais da mesma área.

Quem são os protagonistas do programa científico do con­gresso?
Este congresso pretende ilustrar uma abordagem multidisciplinar da dor orofacial e da disfunção temporomandibular com a presença de palestrantes de referência nacional e internacional em diversas especialidades. Nas palestras serão apresentados protocolos terapêuticos das diferentes especialidades com o objetivo de aumentar o conhecimento in­­­ter­­dis­ciplinar e melhorar o tratamento destes pacientes.
Por tratar-se de um projeto multidisciplinar, contaremos com dezenas de conferencistas de primeiro nível em múltiplas áreas, na sua maioria portugueses, mas também em representação de países como Es­panha, Itá­lia, Alemanha e Brasil. Por isso, consideramos que o congresso vai ser muito interessante. Os pormenores do programa já estão disponíveis no site www.spdof.pt.

Que outros aspetos do programa do evento merecem ser destacados?
Em suma, esperamos receber um grupo alargado de colegas, afetos a várias especialidades, naquele que será o maior evento científico nacional do ano dedicado ao tema da disfunção temporomandibular e dor orofacial.
Aproveito para realçar a plestra de acunpuntura médica como exemplo da multidisciplinaridade que estas patologias exigem.
Estou certo que Coimbra – Património Mundial da Unes­co – reservará um programa social à altura das suas tradições académicas. Não nos esqueçamos, afinal, que maio é o mês da Queima das Fitas.

No seu ponto de vista, que importância assume hoje em dia a vertente da disfunção temporomandibular e dor orofacial no contexto global da Medicina Dentária?
Uma patologia com uma etiologia multifatorial requer um tratamento multidisciplinar. Nesse sentido, tem uma gran­­de importância nas mais diversas vertentes da Me­dicina Dentária: da ortodontia à prostodontia, passando pela me­di­cina oral e pela reabilitação oclusal.
Enquanto cirurgião defendo que a prática minimamente invasiva, nos casos indicados (artrocentese e artroscopia) feitas por profissionais qualificados, traz grandes benefícios para o doente. Os custos são mais reduzidos não só para o doente, mas também para os serviços de saúde.
Esperamos sinceramente que este congresso e a SPDOF conduzam a uma maior visibilidade desta área e, consequentemente, a uma maior sensibilização de todos os pro­fissionais.
Claro está que também é fundamental a sensibilização e a capacitação do doente que, na maioria dos casos, desvaloriza as queixas e desconhece o real im­pacto da patologia, condicionando à partida todo o processo de diagnóstico e o subsequente tratamento.

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