Nº111 SETEMBRO 2020

"Será expectável uma diminuição na procura dos tratamentos ortodônticos"

  • Teresa Pinho, presidente da Sociedade Portuguesa de Ortodontia
  • 11 de Sep, 2020

Teresa Pinho, presidente da Sociedade Portuguesa de Ortodontia

Em termos gerais, quais são as linhas mestras da atual direção da SPO?

O prestígio da instituição que tenho a honra de presidir deve-se ao facto de, ao longo dos anos de história, ter sido dirigida por prestigiados colegas que figuram nos anais da história da SPO pelo seu contributo em prol do desenvolvimento da ortodontia. Construir uma SPO cada vez mais forte e coesa foi o compromisso que assumimos para com os nossos sócios honrando, assim, o legado que herdámos dos nossos antecessores.

A ampliação da formação continua é um dos eixos prioritários, com um especial enfoque no estímulo e incentivo à componente científica.

No horizonte da nova direção da SPO está, também, o aumento do número de sócios. Para o efeito anunciámos, em janeiro do corrente ano, condições especiais de participação no congresso extensíveis a todos os profissionais com interesse na ortodontia, mediante inscrição no congresso, tendo aumentado, significativamente, o número de associados.

Por fim, privilegiar uma comunicação permanente e eficaz, não só com os sócios SPO como com profissionais da área não especialistas, divulgando e promovendo, amplamente, as iniciativas da SPO, numa ótica de despertar e manter vivo o interesse na ortodontia.

De que forma encara a SPO a atual crise de saúde pública e como projeta o periodo pós-COVID-19?

A forma como encaramos a atual crise de saúde pública não será, certamente, muito diferente das demais especialidades no domínio da saúde: com as inevitáveis interrogações de como e em que condições será exercida a prática clínica no futuro. Afinal de contas, a Medicina Dentária foi a primeira especialidade a ser suspensa pela elevada transmissibilidade do vírus, decorrente da vulnerabilidade inerente à profissão. No entanto, não podemos esquecer que na nossa profissão as boas práticas de higiene sempre estiveram presentes, devendo ser mantidas, adaptadas e reforçadas.

O receio do impacto desta pandemia na economia do país é legítimo e compreensível. Ante a possibilidade de um colapso económico resultante deste periodo em que todos nós, médicos dentistas, nos vimos forçados a suspender a nossa atividade (com exceção dos atendimentos de casos urgentes e inadiáveis) surgem as inevitáveis preocupações. Antevendo uma recessão económica e não estando a ortodontia no topo das prioridades no que concerne aos cuidados de saúde oral, será expectável uma diminuição na procura dos tratamentos ortodônticos, em particular procedimentos em adultos, associados quer a motivos estéticos quer a motivos de ordem funcional.

Cientes de que demorará algum tempo até que retomemos a normal rotina, perspetivam-se desafios para todos nós.

Vivemos uma situação de pandemia, com graves implicações para a saúde pública, que nos obrigou a uma rápida adaptação a esta nova realidade.

Vamo-nos deparar com pacientes mais apreensivos e exigentes pois estão cientes do elevado risco de propagação do vírus em contexto de consulta. Podem, no entanto, ficar tranquilos porque a saúde oral, assim como a segurança e o bem-estar dos nossos utentes foi, e será sempre, uma prioridade.

Contudo, o rigoroso cumprimento das recomendações das autoridades de saúde pública, nomeadamente em relação às normas preventivas e procedimentos de segurança, mais do que uma necessidade são, agora, uma obrigatoriedade que não pode, em circunstância alguma, ser negligenciada. Manter a confiança dos pacientes nos nossos serviços vai depender, em grande medida, da nossa conduta enquanto profissionais responsáveis e da capacidade de lhes transmitirmos total segurança e tranquilidade.

O surto de coronavírus terá consequências na organização do próximo congresso da SPO? Quando e em que formato se irá realizar?

Face a este surto pandémico com forte impacto na economia global, deparamo-nos com um cenário de incertezas em que continuam a ser mais as perguntas do que as respostas.

Este vórtice que estamos a viver obrigou-nos a uma redefinição de prioridades. Manter a data de realização do congresso comprometeria, inevitavelmente, a adesão expressiva que perspetivávamos atingir.

Ao mesmo tempo, a oferta formativa online vai preenchendo a necessidade de atualização científica.

Face a todos estes fatores, por prudência e em consciência, as comissões organizadora e científica da SPO entenderam adiar este atrativo evento científico no panorama ortodôntico nacional, para setembro de 2021, nos dias 16 a 18, no Super Bock Arena - Pavilhão Rosa Mota, no Porto.

Que pormenores pode adiantar quanto ao programa científico?

Sendo o aperfeiçoamento em ortodontia um processo evolutivo e contínuo, a realização de um congresso de elevada dimensão científica é absolutamente imprescindível.

A comissão científica estruturou um programa abrangente e diversificado no seu conteúdo que faz jus ao rigor que a SPO imprime em todas as suas iniciativas.

Antecipamos, para 2021, a confirmação de grandes nomes da ortodontia, nacionais e internacionais, referências nas suas áreas de atuação, que integram este exímio painel de oradores: Ertty Silva, Alberto Albaladejo, Armando Dias da Silva, Iván Malagón, Martin Baxmann, Hélder Costa, João Pedro Marcelino, Manuel Pesqueira Pérez e eu própria, proporcionaremos experiências enriquecedoras e práticas diversificadas no lato espectro de domínios na ortodontia, com um forte debate tendo em conta o tratamento ortodôntico convencional e com alinhadores, mas sempre com a ortodontia para a além da técnica. Perspetivamos ainda a participação do Dr. Manuel Román Jiménez, presidente da Sociedade Espanhola de Alinhadores (SEDA), que assegurará o curso pré-congresso subordinado à temática “Alinhadores: tratamentos desde os cinco anos até à cirurgia ortognática”.

Pretendemos, assim, que este congresso, onde serão discutidas as novas fronteiras e territórios do conhecimento da ortodontia, enfatizando uma abordagem multidisciplinar, se apresente como uma oportunidade de atualização científica.

Serão abordadas diferentes visões no domínio ortodôntico sem perder de vista as inovações e os mais recentes avanços científicos que fazem da nossa especialidade uma das mais atrativas e fascinantes da Medicina Dentária.

Quais são as suas expectativas quanto à adesão ao congresso de 2021 por parte dos colegas de profissão e também dos representantes das casas comerciais?

O elevado nível de oradores que integra o programa científico, aliado ao dinamismo e capacidade mobilizadora das comissões organizadora e científica, leva-nos a acreditar que será um sucesso. A escolha de temas diversificados e as diferentes abordagens no tratamento ortodôntico convertem este encontro científico num espaço privilegiado de partilha de conhecimento, discussão, análise, debate e reflexão das problemáticas relacionadas com “os novos desafios” que se colocam à especialidade. De salientar que, imediatamente após a abertura das inscrições em janeiro do corrente ano, tivemos uma expressiva adesão de profissionais: 114 inscrições em apenas um mês de divulgação.

A forma como as empresas e serviços, com particular interesse no setor, aderiram ao nosso convite no período que antecedeu a pandemia é um excelente indicador de que a área de exposição poderá suplantar as nossas melhores expetativas.

Para além das empresas e marcas que estiveram presentes na XXVI edição, novos players confirmaram já a sua participação após terem tido conhecimento do sucesso obtido na edição anterior, marcada por um expressivo número de participantes e empresas do setor.

Um novo formato de evento, que privilegiou a inovação tecnológica ao serviço do congresso, o qual pretendemos manter na próxima edição, contribuiu, em larga medida, para o êxito alcançado.

À margem da pandemia, que outros grandes desafios (pré-coronavírus) se colocam aos médicos dentistas que centram a sua prática na ortodontia?

Na época tecnológica e no aumento de técnicas diferenciadas, antevêem-se realidades de prática clínica que vão muito além de uma ortodontia de consultório e de prática puramente clínica.

Para além da formação de base e atualizações constantes que o médico dentista, com interesse na ortodontia, vive ao longo da sua carreira, a prática na ortodontia exige investimentos tecnológicos e de material ainda mais elevados do que sempre nos habituamos.

A ortodontia pré-COVID-19 mostrava-se numa fase de valorização de uma importância primordial, quer em termos de saúde oral com uma oclusão estável e funcional, como a consequência de um resultado estético que era, cada vez mais, compreendido e procurado pela maioria dos pacientes. Os pacientes já começavam a estar mais sensibilizados para um plano de tratamento completo que valorizava o sorriso como um todo para uma melhoria pessoal. Havia uma integração, cada vez maior, na projeção do sorriso e uma abordagem multidisciplinar na qual a ortodontia fazia, faz e fará sempre de pilar para a maioria das outras áreas da Medicina Dentária.

A intervenção precoce em pacientes de idade jovem estava a tornar-se consolidada numa sociedade cada vez mais sensível e atenta e exigente na procura de um sorriso saudável e agradável para um bem-estar funcional, físico e psicológico dos seus filhos.

Numa fase pós-covid, provavelmente, ver-se-á um controlo maior de custos. Contudo, esperemos que tenhamos semeado algo que floresça neste plano geral que se avizinha, muito embora conscientes de que as necessidades vão ser priorizadas.

No campo da formação continuada e da pós-graduação, como avalia a evolução do ensino desta especialidade nos últimos anos?

Assim como a ortodontia tem evoluído bastante, o ensino e a formação contínua são, sem dúvida alguma, dois dos principais pilares que sustentam toda e qualquer especialidade. A expressiva adesão às pós-graduações universitárias são críveis indicadores do crescimento e notório interesse pela ortodontia.

Em Portugal, o ensino universitário neste âmbito deve continuar a evoluir de forma exponencial, com seleção cada vez mais rigorosa do corpo docente, critérios estes que devem ser assentes na comprovada experiência clínica, valorização e elevado reconhecimento científico, com o intuito de desenvolver as potencialidades e competências dos seus alunos.

Desta forma, as universidades devem estar preparadas para a formação dos seus discentes pós-graduados, propagando que, como princípio primordial, a ortodontia em Portugal deve ser exercida por profissionais altamente qualificados e que acompanhem a constante inovação científica e técnica, em prol do melhor resultado para os seus pacientes.

Tendo em conta que a ortodontia atual prima por planos de tratamento menos invasivos e estéticos, o ensino teve, necessariamente, de evoluir nesse sentido. A base da ortodontia permanece constante sendo o diagnóstico a primazia do todo, mesmo que as metodologias de diagnóstico, planeamento e tratamento, se vão tornando cada vez mais sofisticadas, assim como as metodologias de ensino.

Em que momento se encontra a ortodontia sob o ponto de vista científico e terapêutico?

Sob o ponto de vista científico e terapêutico podemos afirmar, com toda a convicção, que nos encontramos num patamar de consistência e qualidade. Esta especialidade tem-se destacado pelo número, cada vez mais expressivo, de profissionais de excelência que têm dado um enorme contributo para a dignificação, valorização e reconhecimento da ortodontia no seio da Medicina Dentária.

Não desmerecendo a eficiência já cientificamente comprovada e consolidada do tratamento ortodôntico convencional, a ortodontia tem sofrido grandes evoluções em termos científicos e, consequentemente, terapêuticos.

As evoluções e alterações na aparatologia ortodôntica têm apresentado um importante espaço na ortodontia contemporânea, cada vez com uma procura maior por tratamentos que consigam apresentar uma eficiência igual ou até mesmo superior, com menos comprometimento da componente estética e do conforto dos pacientes.

Tendo em vista o seu vincado perfil na área da investigação, que aposta delineou neste domínio?

Consideramos fundamental que a ação formativa ultrapasse o congresso da SPO e se replique ao longo de todo o ano. O simpósio “Tratamento ortodôntico preventivo e intercetivo”, realizado em janeiro do corrente ano, com inscrições gratuitas para sócios e alunos da pós-graduação em ortodontia, atesta o nosso compromisso de sociedade científica dinâmica que tem como foco primordial os nossos associados. Face ao êxito alcançado nesta iniciativa onde marcaram presença cerca de 200 profissionais estamos já focados na preparação da segunda edição, com data prevista para janeiro de 2021.

Até outubro deste ano será relançada a revista “Ortoclínica”, órgão oficial da SPO, um importante veículo de disseminação do conhecimento, com renovado grafismo e novo corpo editorial. O próximo número conterá também artigos editados pelo fundador e propulsor deste importante projeto, Dr. Miguel Nóbrega, sendo a transição para um novo ciclo abrindo novas possibilidades.

Sermos editores deste importante veículo de divulgação clínica e pesquisa é mais uma etapa a ser cumprida pela nova direção da SPO e um grande desafio que encaramos com muita determinação e elevado sentido de responsabilidade.

Nesse sentido, endereçamos o convite a todos os colegas para submissão de manuscritos (casos clínicos, artigos de revisão e investigação), colaborando na sua divulgação.

Que importância atribui às novas tecnologias como contributo para a prática ortodôntica?

A especialidade de ortodontia tem assistido ao aparecimento de inúmeras tecnologias inovadoras que resultam numa maior eficácia, eficiência, rapidez e conforto no tratamento ortodôntico. As inovações tecnológicas possibilitaram o desenvolvimento de métodos e ferramentas com maior precisão e detalhe.

A ortodontia digital também possibilitou a previsibilidade dos resultados com o aparecimento de novas tecnologias para realização de diagnóstico e de plano de tratamento que, através do CBCT e scanners intraorais e faciais com construção de modelos em CAD-CAM, quando bem utilizadas, a tecnologia permite tratamentos de maior precisão, maior qualidade e resultados surpreendentes.

A importância de se fazerem diagnósticos clínicos perspetivando planos de tratamento tridimensionais é, e será cada vez mais, uma constante nesta área.

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